Vício e Virtude
- Luz, a Joana

- Sep 5, 2020
- 5 min read
Updated: Feb 22, 2023
Caso 1: O dos vícios
O som dos saltos na madeira dita o ritmo da manhã. Enquanto sai de casa, recapitula a sua aparência: será que está apresentável? Entra no carro.
Cabelos platinados e alisados, um pouco para baixo dos ombros. Scarpin preto, cardigã preto, calça preta e regata de cetim branca. Rímel e sombra ressaltando os olhos esmeraldas e blush para rosar as bochechas. Não muita maquiagem, não pouca também. Sai do carro.
O som dos saltos no asfalto dita o ritmo cardíaco. Acelerado. Acende um cigarro e na primeira tragada expira o nervosismo junto com a fumaça. É hoje o dia, e nada deverá abalá-la.
Para na porta da empresa para terminar o cigarro, pisa na bituca com o Scarpin, põe uma bala de menta na boca. Entra no prédio.
O som dos saltos no porcelanato polido já não dita mais nada, o toque do celular interrompe o ritmo cotidiano. Não era para acontecer. Fora de seu lugar. Inesperado. Dissintonia.
- Alô?
- Tem como você ficar no hospital com a mãe hoje?
- Não.
- Você não ficou nenhuma vez.
- Já disse que não posso.
- Eu tenho ficado todos os dias desde que ela foi internada, não estou reclamando, é só que hoje eu tenho um compromisso que não dá para desmarcar.
- Eu também tenho.
- Você não pode ceder nenhuma vez, né? Sempre põe o trabalho na frente da família.
- É que ao contrário de você, eu tenho um trabalho.
- Eu não tenho como ficar aqui hoje. Dá para você, uma vez na vida, pensar nos outros?
- Eu tenho uma reunião muito importante hoje, do tipo que vai ser um divisor de águas. Não tem como, sinto muito.
- Você não pensa que se a mãe morrer você não vai ter tido a chance de dar adeus? Que o último tratamento que você vai dar a ela é de negligência?
- A mãe está estável já faz um tempo, não vai ser hoje que ela vai morrer.
- O que mudou em você?
- Ela está nas mãos dos melhores médicos, pagos com o meu dinheiro, você não precisa ficar aí de plantão. Agora eu vou desligar que vou entrar em reunião.
O som dos saltos no porcelanato polido dita o ritmo de sua chegada. A bala de menta acaba. Ela bate na porta três vezes e a abre gentilmente.
- Myers, pontual como sempre.
O dia é um sucesso. A noite, uma criança. Não vai para o hospital e nem para sua casa. Vai chamar por um nome que não está em sua aliança. Sentir lábios que não são seus na lei. Errar por puro capricho e a bel prazer.
O som dos saltos na madeira não existe e por tanto não dita ritmo algum. Os pés descalços deslizam com cautela. Sua chegada em casa é silenciosa. Já é madrugada, não quer acordar ninguém
Doces pecados. Doces vícios.
Caso 2: O das virtudes
O sinal toca, a classe toda na diretoria. Briga durante o intervalo, dois meninos saíram na mão, mas ninguém sabe o porquê. Tem mais partes nessa história, cada um diz uma versão dos fatos. Só podia dar no que deu. Classe inteira na diretoria.
- Eu não fiz nada! – O irmão dizia. E não tinha feito mesmo, não por querer. Os estojos eram iguaizinhos, não tinha como ele saber.
- Fez sim! – O outro acusava com vigor. – Escondeu meu estojo e não quis devolver!
- Eu não escondi nada! E mesmo se tivesse, era motivo para me bater?
- Chega! – A diretora massageava as têmporas. – Não quero saber quem começou ou quem terminou! Os dois vão tomar uma advertência e pronto.
Ai, advertência, a bronca que o irmão ia levar sem ter feito nada. Ia ficar de orelha quente por implicância do outro moleque.
- Aliás, o que é essa gente toda aqui? Vamos, vocês estão em aula! – Só agora a mulher parecia perceber o tumulto na salinha.
E foram, conversa para lá e para cá. Os dois coitados ficaram na diretoria, mas o alvoroço foi até a sala de aula junto com a turma. Boca a boca, um telefone sem fio, o caso ia mudando cada vez que alguém falava nele, quem conta um conto aumenta um ponto.
E na muvuca, Catarina não se aquietava, só pensava no irmão. Os dedos agitados corriam pelos cachos cor de caramelo até eles se acabarem pouco acima dos ombros. O tic-tac do relógio acompanhava o movimento dos olhos verdes e da mente, que não focavam em um ponto só nem por um instante. Nem prestou atenção na aula de espanhol! Que por sinal, já ia se acabando e nada dos dois.
A história era tão simples que ela já sabia de cor. Ontem, na hora de guardar os materiais, ele não lembrou de já ter guardado o seu estojo. Por hábito, pegou o do amigo que sentava do lado e enfiou na mochila. Hoje, quando o menino veio procurando o estojo, o tonto não percebeu a confusão que tinha feito, falou que não sabia. Aí que o desastre se deu, o outro foi lá e fuçou nos pertences de todo mundo e achou o bendito ali. Foi tirar satisfação. Coitado do irmão, a bronca que vai levar.
Ah, mas não vai levar mesmo! Não se dependesse de Catarina. Tomou coragem e com tudo se levantou de sua carteira. Todos os seus materiais caíram no chão, o que interrompeu a saída triunfal da sala de aula. Arrumou tudo bem quietinha e então saiu, o professor até tentou impedi-la, não adiantou muito. O burburinho dos colegas se cessou com aquele ato, ficaram sem entender direito.
Subiu as escadas até a diretoria e abriu a porta agressivamente. Viu os dois meninos e a diretora lhe encararem. Com a bravura de quem está prestes a se sacrificar, ela declara:
- Fui eu.
Ah, a bronca que ela ia levar...
Maldito altruísmo, malditas virtudes.
Caso 3: O dos E’s
E agora ela se olha no espelho, a voz do irmão ecoando na sua cabeça: “ O que mudou em você? ”.
Era impossível não refletir sobre isso, quem ela era e quem ela é. O espelho pode não refletir mais aquela menina de cabelos cacheados cor de caramelo - que era corajosa, leal, altruísta -, mas ela pode, e o faz. O que mudou nela? Algo mudou nela? Ou os vícios sempre estiveram lá, entre as virtudes? Malditos vícios, doces virtudes.
Arruma o vestido preto no corpo, passa a mão pelos atuais cabelos platinados e alisados, os olhos ainda são esmeraldas. Enxuga algumas lágrimas, ela não teve a chance de dizer adeus, bem como ele tinha dito. Espera que a mãe a perdoe onde quer que ela esteja.
Mas no fim não é disso que somos feitos? De vícios e de virtudes? Não, somos feitos de E’s.
Luz, a Joana




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