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O Misterioso Caso de Mariovaldo

  • Writer: Luz, a Joana
    Luz, a Joana
  • Jul 15, 2021
  • 5 min read

Lá vai mais uma da minha saga de não crônicas, afinal, não sou cronista.

Essa segunda obra contará um “causo” muito curioso, daqueles sem explicação, que te pega no meio da noite e te impede de dormir pensando: “Como que isso foi possível?”.

Pois bem, meu caro leitor, venho lhe contar que minha casa é assombrada. Sou uma pessoa um tanto cética, por isso não caio tanto nessa explicação. Entretanto, também não sou capaz de encontrar solução para esse mistério, por isso, que seja Mariovaldo.

Já foi chamado de “O Pianista”, de “Fantasma Chapeiro” e muitos outros apelidos, mas Mariovaldo Laerte é o mais novo que criei (antes era Mariovaldo Astolfo. Achei que Laerte caía melhor). Sua jornada pela minha casa começou ano passado, com o episódio da Polaramine.

Era uma noite qualquer quando minha mãe, Dona Silvia, uma mulher muito distinta: Loira, fina, elegante e sincera (como ela própria diria) gritou do segundo andar do sobrado:

- LETIZIA, ONDE VOCÊ ENFIOU MINHA POLARAMINE?

Já é de se esperar, pela introdução dessa não crônica, que eu não estava com a tal pomada. Porém, daí até fazer minha mãe acreditar em mim eram outros quinhentos.

Vasculhamos a casa toda, reviramos gavetas, bolsos, até dentro de pés de sapatos. Nada da bendita pomada. Até que eu, na última das minhas esperanças, resolvi checar mais uma vez a gaveta na qual ela deveria estar.

Você já deve imaginar, meu digníssimo leitor, que lá estava a Polaramine. Eis a primeira de Mariovaldo.

Claro que minha mãe não se convenceu de que a pomada sempre esteve lá, já que ela própria havia checado o gaveteiro de cabo a rabo e nada tinha encontrado. Porém, aquilo pouco importava, afinal contra fatos não há argumentos e a Polaramine estava na gaveta.

Pouco tempo passou e o fantasma, já muito confiante e atrevido, resolveu aprontar mais uma. Numa tarde de verão - talvez fosse primavera, outono ou inverno -, mamãe deu outra bronca, desta vez sobre a chapa.

É costume daqui de casa preparar sanduíches de tarde, para isso, usamos a dita chapa. Outro acordo que nós temos é de sempre deixá-la limpa, sem migalhas de pão ou algo do tipo.

Já deve imaginar, estimado leitor, qual era o tema da bronca de Dona Silvia: A chapa cheia de migalhas.

Entretanto, eis o seguinte impasse, vivemos a três nessa casa: Eu, minha mãe e minha avó. Eu passei a tarde em jejum, isso posso garantir. Minha avó jurou de pés juntos que também não usou a chapa. Minha mãe, a acusadora, também não poderia ter cometido o crime, já que ela passara o dia no trabalho. Esse mistério, aparentemente insolucionável, teve o mesmo fim que o anterior, caiu nas costas de Mariovaldo.

A história não para por aí, não muito depois, o fantasma atacou novamente. Ok, não exatamente, mas ao fim desse caso, você irá entender.

Era por volta da uma hora da tarde quando minha avó chamou. Uma frigideira em mãos, suja de óleo, e um olhar emburrado:

- Posso saber que guardou a frigideira suja de óleo no armário?

Inicia-se uma nova investigação, desta vez, em busca do culpado de um crime muito mais absurdo. Quem guarda uma frigideira suja no armário?! Ainda mais tampada!

O tempo até o almoço ficar pronto foi o suficiente para um interrogatório. Eu não poderia ter sido, não sei nem fritar nada. Minha mãe, em compensação, foi muito suspeita. No dia anterior, havia fritado um ovo para o jantar, mas dizia que tinha usado outra frigideira e que essa estava limpa.

Tudo isso nos levou a um beco sem saída e, sem outra forma de resolver, responsabilizamos Mariovaldo, o fantasma da casa.

Estávamos no final do almoço quando minha avó parou, estática, garfo em mãos e expressão indecifrável: - Ah, lembrei. - Ela anunciou. Paramos eu e minha mãe aguardando a genial solução. - Fui eu. Fritei um bife e tampei a frigideira. Fui fazer outra coisa e, quando voltei, esqueci que a tinha usado e guardei de novo no armário.

É, não tinha sido Mariovaldo, mas é uma boa história.

Após essa, ficamos muito tempo sem suas fatídicas aparições. Mariovaldo Laerte, o fantasma que já devia nos pagar aluguel, se contentou a apenas tocar teclado de madrugada e mexer nos brinquedos do meu primo enquanto eu ficava sozinha na sala. Sua presença assim, em pequena escala, era quase acolhedora, uma boa companhia com a qual havíamos nos acostumado.

Só que Mariovaldo voltou a se atrever e teve a audácia de agir que nem gente, tomando metade de um isotônico de tangerina.

Eu, honestamente, não tenho ideia do porquê compramos isotônico de tangerina, ninguém da família nunca gostou. Minha avó só toma do de limão, eu só gosto do de morango com maracujá e a minha mãe mal toma. Dessa vez era certeza, nenhuma de nós poderia ter tomado a bebida. Só nos restava Mariovaldo.

Chegamos em sua última aparição, meu querido leitor, a última e mais intrigante ação de Mariovaldo até o momento em que escrevo essa “não crônica”.

Meus tios têm uma chácara e minha família costuma ir para lá nos fins de semana. Eu fico com o meu pai enquanto isso, sou a única que não passa sábado e domingo em Ibiúna.

Em uma noite de sexta-feira, carregamos o carro para a viagem e, antes de chegar na chácara, fizeram duas paradas. Uma em uma lanchonete, compramos as três nosso jantar e fomos comendo no carro. A outra para me deixar no prédio do meu pai. Depois disso, só pararam quando chegaram em Ibiúna.

É importante ressaltar que eu levava meus óculos na gola da minha camisa e que, quando cheguei no apartamento, eles não estavam mais lá.

Inocentemente, presumi que eles haviam caído no chão do carro, mas, quando indaguei minha mãe, ela disse que não.

Novamente, concluí, por tolice, que eles estavam no chão do carro, ela só não tinha encontrado. Quando ela voltou, eu procurei e não os encontrei.

Talvez tivessem caído no chão da lanchonete, talvez na área comum do prédio, talvez eu os tivesse derrubado em casa. Não, se qualquer uma dessas hipóteses tivesse acontecido, eu teria percebido. Só podia estar no carro.

Agora, por mais confuso que pareça, peço a vocês que prestem atenção, pois vou voltar no tempo e acompanhar a trajetória do Honda Fit de minha mãe.

Carregaram o porta-malas antes de partirem, descarregaram-lhe assim que chegaram na chácara. Carregaram-lhe outra vez antes de partirem e o descarregaram quando voltaram para casa. Minha mãe foi ao mercado depois disso, o que significa que o porta-malas foi carregado novamente, só que por compras, o que também significa que foi descarregado. O pobre Honda Fit passou por toda essa epopéia e nem sinal dos óculos.

Minha mãe foi à farmácia e, ao guardar uma sacolinha de remédios, encontrou os óculos estrategicamente posicionados no centro do porta-malas, como se sempre tivessem estado lá.

Mariovaldo, se você está lendo isso, nunca mais roube meus óculos. Eu tenho oito graus de miopia.






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