Febre do Sono à Meia-Noite
- Luz, a Joana

- Apr 13, 2021
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A luz solar entrava pela janela, abençoando o cenário para minha visão, lacrimejando. Pintava o quarto em tons de laranja, como se fosse fim de tarde, tecendo em minha mente um ambiente simplório e desconhecido, ainda que encantador.
As paredes de madeira velha, o teto triangular, a cama do mesmo material. Ouvia o colchão ranger com o meu peso conforme me erguia, os tons dourados ainda refletindo, uma aura quase mística.
Na escrivaninha, também de madeira, jazia uma simples máscara branca, da época da Peste, dos olhos da peça saíam flores. Abri a porta do quarto, sentindo o tecido duro da camisola bege contra meu corpo, cheiro de mofo.
O corredor era pequeno, quase como se não existisse, talvez meu quarto fosse um sótão. Trazia-me um curioso estranhamento, ainda que familiaridade, um estado de poesia. Vou descendo as escadas, passo a passo, cambaleando numa silenciosa dança, apoiando-me nas paredes que agora são de pedra. Pedra bruta e cinzenta, áspera, como de um castelo medieval.
Ao fim da escadaria, a sala tem o mesmo tom do quarto, consigo ver os grãos de poeira flutuando pelo ar, perdendo-se na claridade, as cortinas de seda balançam com um vento inexistente. O piso range, tudo range, até meus dentes, quando sou tomada por um frio que destoa da paisagem. Arrepio até o último fio de cabelo, talvez um espírito tenha passado por mim, talvez o meu próprio. Chega a me doer o corpo o tanto de tensão nos músculos.
Sentimento assombrado que me faz abrir as cortinas, buscando, na rua, pessoas ou qualquer sinal de vida que não seja eu. Coloco meus dedos frios entre as cortinas e as agarro, puxando-lhes para os lados.
Saio da janela em choque com o que eu vi, completamente despedaçada, atônita, perco até o ar, estranhando mais e mais a casa na qual estou presa.
De repente, não me sinto mais parte daquela realidade, como se eu estivesse fora do lugar, uma intrusa num mundo que não me pertence e ao qual não pertenço também. É como se eu fosse feita de bolinhas, bolhas, pixels, desfocada no mundo real. É como se eu não fosse real.
Será que sou eu mesma?
Passado e presente se misturam nessa estranha construção, fazendo minha cabeça doer, logo o futuro também virá, se é que já não veio. Volto a caminhar pelos corredores, que se alongam pelos caminhos mais inesperados, flores brotam pelo chão e pelas paredes, encontrando espaço nos pedaços de madeira clara e puída.
São de várias cores as plantas: Azuis, rosas, roxas, amarelas, laranjas... também são de vários tipos, alguns que eu nunca havia visto. Porém, o que me chama a atenção é: Nenhuma delas é vermelha.
Logo a natureza tomou conta da paisagem, formando, na casa, um enorme labirinto. Altas cercas vivas me fazem perder o rumo na atual escuridão, apenas uma lamparina ilumina meu caminho, meus rastros desaparecem nas trevas. Vendada, sinto a luz da chama me guiar como intuição, não bato em nenhuma parede, não hesito em nenhuma bifurcação, deixo-me levar pelas trajetórias sinuosas, sem ter comando dos trilhos.
Fantasmas sussurram em meus ouvidos, um milhão de histórias, versinhos e poemas. Contos de terror, suspense, tragédia e comédia. Peças de teatro, textos infantis, crônicas, comentários do cotidiano.
“Como vai você?”, “Faz calor, não?”, “Que belo dia!”, “O preço da verdura baixou”, “Era uma vez...”, “Vamos brincar?”, “Adoletá!”, “Promete não contar para ninguém?”. É como se eu pudesse ouvir o mundo, ou os milhares de mundos que existem dentro de mim. Porém, silenciosa, nenhum deles pode me ouvir, minha voz não existe, minha voz é a deles.
Não existe centro nesse labirinto, mas algo me faz parar, como se tivesse chegado ao meu objetivo. É apenas mais um muro de flores, essas são azuis, de um turquesa brilhante, quase neon, fascinantes.
Não sou capaz de conter o ímpeto de pegar uma delas, só uma, para colocar em meus cabelos e me fazer companhia nessa solitária jornada. Com muita delicadeza, tento arrancá-la dali, pois é o que preciso fazer, é o que mais quero. Quando o faço, os espinhos me espetam, mas é um sacrifício que escolho fazer.
As gotas de sangue pingam no chão, tingindo de rubro as violetas sob meus pés, logo dali florescem mais flores, as vermelhas que não existiam. Estavam dentro de mim o tempo todo.
Sigo meu caminho com a flor turquesa nos cabelos. Não preciso mais de lanterna, ela faz do ambiente muito mais claro, amplia a minha visão, me ajuda a compreender os rumos que tomo e meus rastros não se apagam mais. Agora passado, presente e futuro vão ser uma coisa só, elementos de um mesmo cenário que posso ver como um todo.
Cada passo ganha leveza, como se eu flutuasse. Não quero sair do labirinto, quero ficar nele para sempre, desvendar os seus infinitos mistérios, me perder em suas curvas, ultrapassar barreiras e ir além em seus corredores.
As flores vermelhas vão marcando por onde passo, fazendo do passado algo concreto. Um dia, olharei para trás e verei o jardim que construí, a marca que deixei no mundo, a história que escorreu pelos meus dedos e cresceu num solo que já não foi fértil. Dançarei de pés descalços, contornando, num balé, mais palavras que correram pelos meus vasos sanguíneos, tingindo minha alma de escarlate.
Nesse devaneio, dou de cara com uma porta escura. Tudo é escuro de novo, já não estou mais no labirinto. A única fonte de luz é a flor, com seu brilho turquesa neon. Ela, presa atrás da minha orelha, ilumina a minha visão para que eu possa ver a maçaneta e a fechadura, ambas douradas, um ouro antigo e imponente.
Ponho um olho no buraco da fechadura, buscando saber o que há do outro lado. A vista está embaçada e o coração borbulha de ansiedade, a alma ferve com a adrenalina.
Entretanto, ao tentar espiar, sendo uma bela de uma enxerida, só me vejo me encarando de volta pelo outro lado da porta, do exato mesmo jeito que estou agora. As risadas ecoam pelo corredor, travessas, enquanto faço muxoxo com as mãos na cintura. Que afronta!
Só então me vem a ideia, sussurrada pela flor, ainda que sem palavras. Uma memória oportuna de que carrego a resposta comigo. “A curiosidade é apenas o desejo pelo autoconhecimento, pois as respostas já estão lá, dentro de você”
Nós somos o mundo.
Arranco o cordão ao redor do meu pescoço com um puxão. Nele, há uma chave de ferro pendurada, cheia de adornos e voltas, pintada de preto. Não parece ser a correta, mas, mesmo assim, fecho os olhos e encaixo a chave, girando-lhe para saciar minha curiosidade.
Não me surpreendo quando o mundo vira de ponta cabeça, me derrubando para cima da porta, que se abre como se de propósito para me fazer cair no chão.
Com os joelhos ralados, recolho a flor, ainda intacta, e a coloco de volta em meus cabelos, me erguendo do piso frio e branco. Estou na copa, a mesma aura aconchegante do quarto e da sala, dominada pelos tons de laranja do fim de tarde. Uma mesinha simples, de madeira, com quatro cadeiras iguaizinhas, tão familiar. Sinto cheiro de bolo e café, mas o gosto que me vem aos lábios é de chá, chá de erva cidreira.
Com passos lentos, pé ante pé, vou até a cozinha, espiando escondida pela parede. Esperava encontrar mais alguém, fazendo os petiscos os quais agora desejo, minha barriga ronca de fome.
Para a minha surpresa, e para aumentar a minha curiosidade, que já faz um abismo dentro de mim, o que encontro são bilhões de fios, quanto mais conto, mais aparecem. Dourados e completamente estendidos atravessando a cozinha numa gigantesca e complexa teia.
São fortes como aço, mas finos como um capilar. Toco em um deles e escuto uma voz, bem baixinha, quase inaudível. Um mero murmurar que não consigo compreender.
Toco outro, é outra voz, outro idioma, outra entonação, mas também não sou capaz de entender. O som sai tão baixinho e tão corrido que mal posso distinguir as pausas entre as palavras.
Porém algo que eu posso entender é o sentimento que cada cochicho traz. É como se ressoasse dentro de mim, uma empatia por alguém que nem conheço.
Toco mais um fio, e dessa vez aproximo o ouvido para tentar escutá-lo melhor. A voz toca nos meus tímpanos, ecoando pelos corredores do meu cérebro, o que faz que eu compreenda o sentimento com mais intensidade.
Ainda não sou capaz de fazer sentido das frases ditas, porém, a sensação é muito clara.
Fico saboreando a peculiar experiência por algum tempo. Sentir uma emoção que não é minha...
Passo para mais um fio, e depois outro, e mais outro, emaranhando-me cada vez mais na teia dourada, me tornando parte dela. Começo então a perceber uma característica que ainda não tinha reparado: Todos os fios estão conectados, quando se toca um, todos vibram. Alguns mais, outros menos, mas todos vibram em uma caótica sintonia.
E eu vibro junto.
E a flor vibra junto.
Está tudo conectado, estamos todos conectados e o mundo todo é um só. É algo mágico, algo único e fascinante. Algo quase imperceptível no dia a dia.
Como é linda a vida quando se pode sentir o mundo todo.
O sol da manhã invade o quarto por uma fresta da janela enquanto me ponho de pé, ainda sonolenta, A luz pintando o cômodo de um amarelo quase branco.
A flor jaz apoiada no aparador, como a lembrança de um delírio. Uma febre do sono à meia-noite.
Luz, a Joana





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