O Desabrochar e Apodrecer das Flores
- Luz, a Joana

- May 30, 2021
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Acordo com o sol matutino, entrando docemente pela janela aberta. Ele me desperta aos poucos, com a sutileza da primavera, que me faz reviver momentos da minha vida.
Logo, lá estou eu, apoiada no peitoril da janela com uma caneca de café, admirando a vida alheia. Sim, no maior estilo “Janela Indiscreta” ou “A Mulher na Janela”, foi daí que peguei esse costume, inclusive, só que sem a parte dos assassinatos. Porém, presenciei algumas histórias curiosas, que ainda me perturbam os sonhos e que valem contar.
Uma delas foi a da Bela Margarida. Por que “Bela Margarida”? Bem, porque nunca soube seu nome verdadeiro e, da primeira vez em que a vi, ela, muito bela, levava uma margarida nos cabelos ruivos quase loiros. Ou seriam loiros quase ruivos?
Ela vinha pela rua, a ventania brincando com a saia de seu vestido amarelo. Sua pele, queimada de sol, contrastava bem com o castanho escuro de seus olhos, num tom de madeira. Era alta e magrela, esguia, muito jovem e bonita. Devia ser mais nova que eu, com seus vinte e poucos anos.
Entrou no prédio aqui da frente e subiu até o terceiro andar, reaparecendo na janela do apartamento do Barão Ratão.
Por que “Barão Ratão”? Bem, porque também nunca soube seu nome e resolvi batizá-lo dessa forma, depois de ter nomeado a Bela Margarida. Pensei na tabela periódica “Bela Margarida casou com Senhor Barão Ratão”, mas, contando-lhe o fim da trama, o Barão Ratão e a Bela Margarida não se casam nessa história.
Era mais baixo que ela, também era mais corpulento e velho. Poucos cabelos castanhos e branquelo, parecia muito atencioso. Sempre de roupa social, abria a porta com um sorriso largo.
Eles se viam toda quarta-feira, por volta do meio-dia, logo após a esposa do Barão deixar o prédio. Almoçavam juntos e assistiam filmes, muitas vezes sumiam da janela, mas, ainda assim, eu acompanhava o caso dos dois pelo que era visível.
Um dia, ela levou bolo, não sei do que era, mas imaginei ser de laranja, quase pude sentir o cheiro. O bolo foi recebido com beijos e abraços. Os dois pareciam muito apaixonados.
Com sua mulher, o Barão não tinha nem um terço do carinho. Era frio e infeliz, assim como ela, pareciam estar casados por obrigação. Ele não tinha muito dinheiro, ao contrário do que o título de “Barão” dado por mim deve transmitir. Ela, a mulher, deveria ter muito mais posses que ele, parecia ser quem pagava as contas e quem, num divórcio, o deixaria até sem as calças.
Era alta também, tinha os cabelos platinados e lisos num corte Chanel, na altura dos ombros. Longas unhas de um tom de vinho, o mesmo de seu batom, e a pele pálida já era um pouco enrugada.
Eu acompanhava o desenrolar da trama com intrometido interesse, tinha virado a minha novela, meu entretenimento. Assistia a solidão do Barão Ratão, em todas as tardes que não eram de quarta-feira, pela fresta da minha cortina, empurrando meus óculos redondos para o alto do nariz.
Um dia, o feitiço virou contra o feiticeiro: acho que me viram por entre os panos, espiando. De camisetão branco e os cabelos lisos quase pretos despenteados. Fiz-me de desentendida, desviando o olhar para a caneca de café.
O que pensaria de mim a Bela Margarida, bisbilhotando a vida alheia?
Ninguém veio me confrontar, e logo, mesmo relutando, a mania voltou e eu segui a observar os encontros e desencontros daqueles três.
Os amantes foram ficando mais descuidados, a Bela Margarida indo embora minutos antes da esposa chegar. Acompanhei esse crescente desleixo e as crescentes discussões entre o Barão Ratão e sua mulher.
Então houve o fatídico dia, a Bela Margarida chegou no prédio, quarta-feira ao meio dia. Não conseguia ver bem, mas ela parecia ter o rosto machucado, arranhado. Pela primeira vez, não apareceu na janela com um sorriso, estava triste, preocupada, fora de si. Foi a primeira vez em que vi ela e o Barão discutirem
Ela chorou e ele também. Gritaram e silenciaram-se, numa dor insuportável, que irradiava até mesmo por mim. Eu pude sentir as feridas dos dois.
A Bela Margarida foi embora e nunca mais voltou. Sumiu. Não sei se mudou de cidade, se morreu ou se só desistiu do amor.
O Barão Ratão continuou com sua esposa, mas não se olhavam mais nos olhos. Não os vi trocarem uma palavra sequer depois daquele dia. Casados, nem pareciam. Pareciam mortos, um pelo outro.
Um dia cruzei com os dois na rua, mesmo sabendo tudo da vida deles, fingi que não os conhecia.




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