Baile de Máscaras
- Luz, a Joana

- Sep 5, 2020
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Updated: Feb 22, 2023
Em um baile de máscaras organizado pela elite, só é certo que algo grande há de acontecer.
Em uma sala reservada, distante das intrigas da festa, um acordo entre as duas grandes potências da época. A assinatura da rainha decidiria quem sairia desse contrato com mais vantagens. Partindo desse ponto, tudo vale.
Atravessam a porta do palácio um casal, a mulher vai tropeçando na barra do vestido vermelho, então os dois sentam-se à mesa.
Ao lado do homem, dois senhores de alta classe conversam sobre as tendências da moda, um deles claramente especialista no assunto. Seu sotaque confunde quem o ouve:
- Amarrelo i larranj, vãrd i assul o atí mism vermê i ross, combin! Agorri, mi poen vãrd i roche, vãrd i vermê! Há! Quier ser um arvrre di Natal? No se faz alg azin! Son corres mui fortis, nu combin!
- Ai, esse papo de gente rica! Não dá nem pra entender o que o cara fala! – A moça cochicha para o acompanhante.
- Finge, finge que dá que ninguém pode descobrir a gente.
- É, verdade. Não até o jantar, pelo menos.
- Mas e se descobrirem?
- Nega, nega até o fim.
Uma senhorita se senta ao lado da mulher, ambas apoiam as máscaras na mesa rapidamente para coçar os olhos. Os anéis de esmeralda, quase idênticos, se tocam e as duas trocam de máscaras entre si sem perceberem.
Ao fundo do salão, os estrangeiros conversam sobre o grande jogo político que terá seu ápice ali, naquela noite:
- O contrato precisa ser assinado.
- Nunca que ela vai fazer uma loucura dessas, não é vantajoso pro povinho dela.
- Por isso mesmo que não vai ser ela que vai assinar. Eu contratei uma atriz pra se passar por ela. Só distrair vossa majestade enquanto a usurpadora faz o acordo.
- E como que você sabe quem ela é, todo mundo está de máscara e peruca.
- Eu combinei um jeito pra reconhecê-la.
- E quando vai ser o encontro?
- Antes do jantar.
Outra senhorita esbarra no aparador, fazendo o vaso cair, as criadas correm para ajudá-la, ela as manda sair e as criadas a obedecem assim que veem o anel de esmeralda. A garota analisa caco por caco até encontrar um com algo escrito: Guardanapo ao pé do aparador.
Perfeitamente como está escrito, há um guardanapo, ainda em branco, sob o pé do aparador de madeira de lei. Ela tira do sutiã uma caneta e se apressa a escrever: Fique de olho, ela não pode entrar na reunião, tem que ser antes.
Outro casal atravessa a porta. Uma dama também em vermelho e um homem em um ótimo terno. A dama diz:
- Realmente a rainha tem bom gosto, a decoração está incrível!
- De fato, ela nunca está fora de moda. Suas vestimentas sempre ornam com o anel que ela usa.
- Me impressiona você saber tanto sobre o assunto.
- Andei estudando ela. Você sabe, a fins profissionais.
- Vão tentar matar a rainha hoje e você se preocupou em estudar o estilo dela. Não te entendo.
- Em um baile de máscaras, o único jeito de saber quem é ela é conhecendo suas preferências estéticas.
- Ah, claro. Que seja, só fique de olho nela
Entre bebidas e quitutes, dança e muita música erudita, a aristocracia se embebedava. Os pobres intrusos tiravam a barriga da miséria. Os políticos confabulavam. Todos os convidados conspiravam. Em nome da rainha. Contra a rainha. Só que é difícil fazê-lo quando existem quatro rainhas em um mesmo baralho.
Era chegada a hora do acordo, os estrangeiros partiram para a ação:
- Muito bem, vou distrair a verdadeira, você leva a falsa para a reunião.
- Qual é a falsa?
- A de máscara branca com contorno dourado.
Quatro rainhas em um mesmo tabuleiro, uma delas fazia seu movimento, pondo todas as outras em cheque.
Seguiu até seus guardas e anunciou que havia uma intrusa vestindo vermelho. Ordenou que a retirassem. Os homens imediatamente obedeceram assim que viram a esmeralda em seu dedo. Abandonaram seus postos, deixando livre a escadaria que dava para os aposentos reais.
A outra rainha vê a rainha vermelha ser levada até a sala de reuniões, vai ser agora, porém, a oportunidade de resgatar algo seu surge. O caminho para buscar seu pertence está limpo, seu parceiro teria que concluir o serviço. Escreve no guardanapo: “Sala de reuniões” e sobe a escadaria.
- Sua majestade aceitaria dançar comigo? – O estrangeiro pergunta.
- Claro! - Ela responde.
- Devo comentar: Curiosa combinação a que sua majestade escolheu para hoje, me surpreendeu.- disse enquanto segurava a mão da mulher. Lá estava o anel de esmeralda.
- Não lhe agrada?
- Imagina, o roxo lhe cai muito bem, é só diferente do que costuma usar.
- Decidi variar, é uma data importante.
Os guardas encontram a intrusa de vermelho, prestes a jogá-la porta afora, ela grita:
- Não sou eu! Eu não sou intrusa! Me escutem! Eu, eu...! – Fecham a porta e ainda pode-se escutá-la esmurrando a madeira pelo lado de fora.
Quem não perde nenhuma jogada durante a noite é uma das quatro rainhas, que vê a outra entrando na sala onde ocorreria o acordo. Não perde tempo, o anel já escondido no sutiã desde o começo da festa, só fora colocado para falar com os guardas. Dirige-se a rainha de roxo e fala:
- Sua majestade, estão lhe chamando na sala reservada.
O estrangeiro empalidece, a rainha se adianta para onde o acordo aconteceria e é surpreendida por outra em seu lugar, o veredito é adiado. A rainha vermelha vai para o jardim tomar um ar.
Um homem corre para as escadas, ainda desobstruídas. Passa reto pelo aparador, sabia quem era seu alvo e a viu subir agora a pouco. Vestido salmão e anel esmeralda, aquela mulher sabia de tudo que estava acontecendo naquela noite.
Subiu a escadaria, faca na mão. Encontro-a vasculhando gavetas, logo ela percebeu sua presença e os dois se colocaram em uma luta corpo a corpo. Máscaras e perucas caíram em meio a briga. A, agora descoberta, loira estava caída sobre a colcha florida, a faca pressionada contra seu pescoço, surpreendeu-se ao reconhecer quem a ameaçava. O homem disse:
- Não era você quem eu estava esperando.
Pelos fundos do castelo, uma das quatro rainhas caminhava, a barra do vestido azul já suja de terra. Começou a escalar as sacadas para chegar ao quarto onde os equipamentos de caça estavam guardados. Não foi fácil chegar até à sacada do segundo andar, fazia muito tempo que não passava por uma situação dessas e também não estava com as vestimentas mais adequadas. Entrou pela janela estrategicamente deixada aberta para caso algo desse errado no plano. Pegou o arco, pendurou a aljava cheia no ombro, tirou de dentro da roupa o anel de esmeralda e o colocou sobre uma mesinha do quarto.
Caminhou sobre a grade de segurança da varanda até ter a vista do jardim. Encontrou seu alvo sentado em um banco, vestido vermelho, a que entrou na sala. Colocou a flecha no arco e mirou friamente. O sangue tingiu de vermelho a pedra branca onde a mulher estava sentada.
Uma criada assistiu o assassinato pelas portas de vidro que separavam o jardim da cozinha. Deixou a travessa cair no chão e gritou horrorizada:
- Mataram! Mataram a rainha!
Luz, a Joana




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