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A Última História

  • Writer: Luz, a Joana
    Luz, a Joana
  • Oct 22, 2020
  • 3 min read

Updated: Feb 22, 2023

O relógio parou. Ainda me restam alguns momentos antes de ir. Ainda posso te contar mais uma história.

Poderia contar de como consegui esta casa, de um empregado ao único morador. De como essas paredes já foram fortes, os ambientes iluminados. Agora, as únicas coisas que iluminam o mogno são sua pele lunar e a prata de meus cabelos. Nesse exato momento, somente a prata dos meus cabelos. Em breve, solitária será sua pele lunar nessa tarefa.

Não, minha história não é digna de ser a última. A sua, sim.

Ah, Celine, tão pequena te encontrei na floresta chuvosa e cometi meu primeiro erro: não deveria ter te tirado de seu lar, você pertencia ao místico e eu era só um homem comum. De baixo da árvore, vulnerável, um bebê. Distante, as luzes da fogueira bruxuleavam entre as bruxas, talvez sua mãe estivesse lá. Quando te vi, senti um carinho inexplicável, uma vontade de cuidar, uma ternura. Você não merecia viver daquele jeito.

Ainda posso te ouvir correndo por essa casa. As plantas ganhavam vida na sua presença, os pássaros cantarolavam no seu ritmo e assim, seus cabelos de fogo coloriam a minha vida. A luz entrava pelas janelas, no seu sorriso havia um sol. Minha pequena, desde de você, nunca mais me senti só.

Agitada, como qualquer criança, corria pelos quatro cantos do nosso sobrado, a mobília parecia se adaptar aos seus passos afobados, se desdobrando à sua vontade, abrindo caminho para que você voasse livre. Foi aí que comecei a perceber, você trouxe magia para a minha vidinha monótona.

Cada passo seu, cada conquista, acompanhei com orgulho nos olhos, sabendo que você era verdadeiramente especial. Te vi crescer e dominar sua própria força, usá-la ao seu favor. Evoluiu diante de mim, de menina virou moça, e de moça virou mulher. Uma boa mulher, que usa das suas artes para o bem. Uma “gente grande” que ainda tem criancice em si, que ainda conversa com as plantas e canta com os pássaros. Cada dia com você é uma nota de um dueto em harmonia com o mundo.

No meu mundo com você, nunca mais choveu e nem ficou nublado. É como já falei, minha querida Celine, você carrega o sol no sorriso e é impossível que alguém não se abra para o seu jeitinho doce. Nem mesmo o mais teimoso céu resiste. Todo dia é sol e brisa serena.

Pois a serenidade não se vai quando você sai para trabalhar. Ela fica, como resquício da sua magia, marca da sua presença, promessa de que retorna. Seu retorno é um presente para mim, assim como a sua vinda foi uma bênção. Pena que não poderei vê-la voltar hoje.

O relógio parou, Celine, e sei que em breve me apago como vela. A casa vai ficar escura até você chegar, já que agora o velho senil não pode mais iluminá-la com a prata de seus cabelos. Só resta você e a sua pele lunar para darem vida a essa casa.

Vou me indo, Celine, e não há nada que possa fazer, não dessa vez. Vou indo embora e nem magia tão poderosa como a sua é capaz de impedir que o véu negro me cubra o rosto e que eu feche os olhos ao seu toque gelado. A única coisa inevitável da vida, mas ela não me assusta nem um pouco.

Já é tarde, minha querida Celine. O relógio parou e eu sinto o toque frio aproximar-se. A ventania desliza discreta pela porta e vai me levar como folha no vento, não tenho medo. Dou um bom fim à essa, que é minha última história.

Luz, a Joana.

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