A Menina do Trem
- Luz, a Joana

- Sep 5, 2020
- 3 min read
Updated: Feb 22, 2023
Ela não tinha nada de especial, nada mesmo. Só mais um rosto comum e discreto. Nem sei como ou porque reparei nela, era apenas mais uma menina.
Era um dia de inverno, por volta das cinco da tarde. O sol ainda brilhava, empalidecendo mais ainda a paisagem. Era realmente um dia frio.
O trem estava cheio e por sorte consegui um lugar para sentar-me. Ela também conseguiu.
Estava do outro lado do corredor, encostada na janela. Colocou os cabelos atrás da orelha, eles eram cor de caramelo e cacheados nas pontas, mais ou menos na altura dos ombros.
Nada de especial até ela puxar do bolso um caderninho vermelho e um lápis preto bem apontado. A garota começa a escrever. Era a única do trem que não usava luvas, provavelmente seus dedos estavam congelando. Era um dia bem frio. Prestei atenção em suas unhas, não estavam pintadas, porém eram bem cuidadas. Curtinhas, rente à carne.
Às vezes ela parava de escrever, batia o lápis no caderninho, voltava algumas páginas e lia. Retornava à página atual e continuava escrevendo.
O barulho do lápis riscando o papel tinha um ritmo curioso, que era acompanhado da dança feita pela mão da menina. Ela era canhota. Me peguei imaginando o que ela tanto escrevia. Será que era uma aspirante a escritora? Ou talvez fosse uma detetive, recapitulando pistas antigas e anotando as novas, tentando conectá-las em busca do grande culpado? Era interessante tentar adivinhar a vida da garota.
O risca-rabisca foi interrompido pelo toque de seu celular. Ela o tirou do bolso do grande casaco cinza que vestia e atendeu. Falava baixinho, com toda a discrição possível, não era uma pessoa de exageros, que falaria alto, deixando todo o trem a par de sua conversa. A menina tinha elegância e sutileza admiráveis, todos os seus gestos eram delicados, assim como sua voz aveludada.
Mesmo assim ela parecia preocupada, falava, falava e falava num sussurro quase inaudível. Até afastou a echarpe quadriculada em vermelho e branco que usava no dia do pescoço.
Foi quando ela percebeu que eu a encarava. Olhou-me com seus olhos castanhos e não sei quem ficou mais constrangido. Virei-me depressa, fingindo que admirava a paisagem, quando na verdade admirava seu reflexo na janela. Era tarde demais, a menina tinha despertado minha curiosidade.
Voltou a falar, só que dessa vez tapando a boca com uma das mãos, depois de um tempo relaxou, apoiando o braço sobre o colo, mas ainda continuava com as feições preocupadas.
Já não falava mais, só escutava atentamente o que era dito do outro lado da linha. Balançava sutilmente a cabeça, totalmente concentrada no que ouvia. Olhei para a mão que não segurava o telefone, estava fechada. Provavelmente a garota cravava as unhas curtas na palma, depois de um tempo haveria marcas em forma de meia lua ali. Tentou falar, foi interrompida pelo seu interlocutor. Olhou para a palma da mão machucada e esfregou-a no casaco e depois a enfiou no bolso.
Ainda ouvia atentamente, e em questão de segundos a menina começou a morder o lábio inferior. Tinha a boca rosada por conta do frio, assim como as maçãs do rosto e o nariz. Tentou falar de novo e mais uma vez foi interrompida. Seguia mordendo os lábios.
A cena prosseguiu dessa forma por mais alguns minutos, até que a menina disse algo, provavelmente uma despedida e desligou o telefone. Passou o polegar nos lábios e depois o esfregou no indicador, limpando o pouco de sangue que estava lá. Sua boca tinha ficado marcada por conta da mordida.
Chegamos à sua estação, a menina saiu no meio do tumulto e eu fiquei.
Vi seu rosto só mais uma vez, neste caso, sorrindo. Era sua foto que aparecia no jornal no dia seguinte e a manchete não era agradável, ela tinha sido assassinada na noite anterior, ou seja, pouco tempo depois de eu tê-la visto no trem.
Lembro muito bem do que foi dito no jornal, tirando seu nome, que sumira por completo da minha mente. Pra mim o anúncio dado na televisão sempre seria: Procura-se o responsável pelo homicídio da menina do trem.
Luz, a Joana




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