Velhos Jovens
- E. R. Recco

- Nov 7, 2021
- 3 min read
Em uma calma tarde de domingo, eu estava no meu quarto no andar de cima quando eu comecei a escutar a música do caminhão do sorvete, aquele que as crianças gostam tanto. Eu corri para colocar os meus sapatos e saí à procura do sorvete. No meio do caminho começou a chover e eu fui achando que não tinha mais jeito e eu não ia achar esse caminhão. Mas do nada, como se fosse filme, eu o vejo logo do meu lado e fui direto fazer o meu pedido, saí com um sorriso que ia de um lado ao outro do meu rosto. Quando, depois de quase me matar de correr, eu cheguei nas escadas da frente da minha casa, respirei bem fundo e comecei a comer o meu prêmio.
Mas foi nessa hora que me bateu, eu, já um adolescente de 16 (quase 17) anos, tinha saído do meu quarto e corrido na chuva só para comprar um sorvetinho que geralmente são crianças de 10 anos que compram? Pelo visto, sim. E eu estava amando cada segundo daquilo. Enquanto eu estava tentando voltar para casa, eu percebi que um monte de gente ficava me encarando, tentando entender o que esse garoto está fazendo correndo na chuva com esse sorvete? Ele já não está velho demais para isso?
Eu acho toda essa concepção muito curiosa e engraçada: os mais jovens querem sempre ser mais velhos, mas os mais velhos sempre reclamam de como era bom ser jovem. Quanto mais velhos ficamos, mais a ideia de velhice envelhece. Os adolescentes fazem de tudo para parecer mais velhos e serem tratados como tal, enquanto os mais velhos tentam provar que ainda são jovens o suficiente para fazer todo tipo de coisa tipo andar de jet-ski.
Mas porque a gente pensa assim? Se a juventude é uma coisa tão preciosa, porque alguns de nós não veem a hora dela acabar enquanto outros têm o mais profundo desejo de ter 15, 16, 17 anos de novo? Esse é um dos eternos dilemas da humanidade, um exemplo próprio de que a gente só sabe o que tem quando perde. A vontade insaciável do adolescente de poder dirigir, votar, beber e a aspiração inigualável dos mais velhos de, nas palavras do grande Mario Sergio Cortella, “ter mais comida e menos caixinha de remédio na mesa do café da manhã”.
A gente poderia aprender a apreciar um pouco mais o que a gente tem, aproveitar essa pequena juventude, mas também, as alegrias da velhice. Todos temos algo a oferecer, a gente deveria estar menos preocupado com o futuro ou o passado, ficar menos ansioso para coisas que vão acontecer com certeza e lembrar com alegria dos tempos antigos e não com arrependimento, tenho certeza de que tudo seria muito mais fácil desse jeito.
Quando eu estava bem perto da minha casa, eu passei por uma senhora que, quando me viu todo lambuzado de sorvete, sorriu. Ela entende, ela entende que eu estou aproveitando ao máximo tudo isso, que se dane que eu não sou mais uma criança de 10 anos esperando pela musiquinha de um caminhão, sorvete é muito gostoso e eu estou simplesmente utilizando a minha juventude para fazer todas essas coisas enquanto ainda dá tempo.
Ou seja, se você está escutando a música pela janela, vai lá que você não vai se arrepender, e pede o sanduíche de sorvete, comi e recomendo.





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