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Sai do celular e presta atenção na rua, Renata!

  • Writer: E. R. Recco
    E. R. Recco
  • Aug 25, 2021
  • 3 min read

Ah, o mundo moderno! Quantas inúmeras maravilhas ele nos trouxe, não é mesmo? Carros, celulares e alguns até diriam que temos mais apreço pela vida humana do que nunca. É isso que eu estou falando para minha mãe toda vez que entramos no carro e ela vai dirigir, mais conhecida como, a hora em que ela decide ser multitasking. A cada farol vermelho que passamos, meu coração fica mais acelerado e eu mais inquieto. Cada hora que olho para o visor do motorista e só vejo aquele velocímetro subindo, já quero pedir para me deixar ali mesmo que o resto eu vou andando, enquanto isso, ela está lá, pleníssima, dirigindo, conversando no celular, terminando um PowerPoint, fazendo torrada e resolvendo a crise no Oriente Médio, você sabe, aquelas coisas comuns que mães fazem.


Mas depois de tanto tempo temendo pela minha vida ao entrar na carroceria com complexo de avião que é o carro de minha mãe, eu percebi que o real culpado não é nem a falta de atenção dela, mas sim o que prende ela (tanto a pessoa quanto a atenção). O trabalho moderno.


Nos tempos mais antigos, trabalho era muita coisa muito íntima, familiar, calmo e no seu ritmo. Claro, não rendia tanto como hoje, mas pelo menos as pessoas eram mais felizes e tranquilas. Daí o tempo foi passando e o trabalho foi ficando cada vez menos humano, com prazos mais curtos, jornadas longas, horas extras torturantes e salários que podem subir ou descer com o que parece ser a vontade de Deus. Como que nós deixamos que se tornasse isso? Ganhar uns trocados a mais vale tanto assim?


Vale. Foi isso que aprendi com a vida. Para os que estão no comando, cada centavinho vale e, por mais gentis que eles possam parecer, dando pelo menos um dia de folga, jurando pagar a todos pelo menos um salário-mínimo e ser totalmente desconstruído e apoiar que mulheres tomem cargos de liderança, você lentamente vai percebendo que tudo isso que eu estou falando é o mínimo para qualquer trabalho no mundo, ou pelo menos deveria ser.


Quando que vamos todos perceber que não adianta fazer essas promessas que dão em nada, que são da boca pra fora, que apenas servem para aparecer nas fotos, tratados e acordos, nós precisamos aprender a realmente ter mais apreço pela vida humana e ver que, uma pilha de bronze (que nem bronze é, mas provavelmente é latão) que chamamos de centavos não vale mais do que algumas horas com a família, poder tomar um café, tranquilamente, com alguém, passear com o seu cachorro ou ler um livro.


Mas você acreditaria se eu te disser que os grandes chefões já fizeram de tudo isso uma realidade? Com apenas um porém, é só para eles. Eles não percebem erro algum com o sistema, eles estão super relaxados e eu posso perceber e provar isso. Enquanto minha mãe trabalha dentro de uma empresa, meu pai é sócio de escritório de advocacia. Enquanto um é empregado, o outro é empregador e eu vejo claramente quem tem mais tempo disponível, quem tem tempo pra marcar uma aula de italiano às plenas três da tarde e não às sete horas da manhã, único horário em que não tem uma reunião marcada, quem tem tempo pra ir ver salas comerciais, para alugar, a tarde inteira ao invés de nem poder pegar um pedaço de bolo na cozinha que o celular já começa a estourar com mensagens de pessoas perguntando onde ela foi que já vai começar a reunião das 14h, 14h01, 14h02 E 14h03.


Agora eu até entendo minha mãe enquanto dirige, tudo que se passa naquela ligação e porque ela não pode só desligar e conversar sobre qualquer outra coisa, tem vários obstáculos no caminho. Mas eu com certeza ainda vou continuar com o coração na boca, rezando para que eu não pare no IML (que, aliás, é logo ali, na esquina que ela acabou de errar) e pedindo, pelo amor de tudo que é mais sagrado, sai do celular e presta atenção na rua, Renata!


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