Petúnia - Conto
- E. R. Recco

- Sep 7, 2020
- 6 min read
Começo por dizer que esta história pode não ser tão acurada como aconteceu em minha vida, já que ao escrever os fatos em papel, geralmente nós exageramos alguns acontecimentos ou podem causar um trauma tão grande que nos esquecemos de partes importantes ou ainda podemos simplesmente, esquecer.
Nasci na orfandade, adorava um clima costal, mas minhas condições humanas criavam uma certa ironia, já que ficava com náusea por ficar no nível do mar, então, comprei um chalé ao lado de um lago, seu nome popular era “O lago enferrujado” por sua cor marrom ferrugem, mas não se engane, era um dos lagos mais limpos e majestosos que já tinha visto em todos os anos de minha amaldiçoada vida.
Era um dia calmo pelas margens do lago, quente, era o começo da primavera. Estranhamente, não tinha memórias da noite anterior. Ao me levantar, eu sou cegado pelo brilho radiante das manhãs de primavera, o cheiro, a cor, a luz, tudo tão rejuvenescedor, mas agora essas sensações não me trazem nada a não ser arrependimento.
Quando me aproximei da janela, eu vejo as pessoas se divertindo no lago abaixo, correndo, sorrindo e brincando, mas é paisagem é desfeita por uma silhueta alta e misteriosa, com um olhar sombrio. Eu não conseguia tirar meus olhos dela, era horrendo a sensação que passava pelo meu corpo enquanto a observava, como se tivesse borboletas raivosas em meu estômago, mas era tão hipnotizante que não tinha como não olhar. Então, subitamente, ela some, não deixando nenhum rastro.
Com minha alma ainda perturbada pelo que tragicamente vi, comecei o dia. Primeiro o café e em seguida uma caminhada pelos campos de ipês do meu jardim, em minha opinião, as árvores mais coloridas e brilhantes de toda existência. Depois, fui cortar lenha em uma floresta próxima. Mesmo com todas essas distrações, não conseguia deixar de pensar na misteriosa silhueta que vi pela manhã, eu sentia que ela estava me olhando e me seguindo a todo momento. Ao final do dia, retornei para casa, jantei e, ao acender a lareira, adormeci.
Ao início do segundo dia, sinto que o clima está mais quente do que ontem, ainda continuava com minhassúbitas amnésias, pois não reconhecera o tempo passado. Levantei-me e, quando me dirigi a janela, abri as cortinas e uma clara luz atinge meus olhos, uma forte e penetrante luz e, com ela, vinha um calor estrondoso que me fazia querer arrancar todas as minhas roupas. Fechei-a o mais rápido que pude, pisquei meus olhos algumas vezes para poder me adaptar melhor as novas condições, voltei a abrir a janela apenas para ver os turistas no lago, com uma pequena discrepância, agora tem mais deles.
Todos com roupas de banho, óculos de sol e diferentes cremes para a pele, todos se divertindo ao máximo, no escaldante calor do verão. “Não pode ser!”, eu pensei diante dessa misteriosa situação, “Ontem ainda era na primavera, não podemos estar no verão tão cedo!”.
“Meus lapsos de memória devem estar ficando mais fortes”. Continuo com minha simplória vida.
Nunca me considerei uma pessoa chata ou insuportável, nem mesmo pelas pessoas próximas a mim, mas, por algum motivo, não estava gostando de ter de conviver com essas pessoas, a barulheira e os maus-tratos ao ambiente me deixavam com um certo desconforto, as maneiras humanas são realmente muito estranhas e, de vez em quando, irritantes. Então, os ignorei e segui com minha rotina.
Minha viagem pela floresta foi como sempre, mas a sensação ainda estava lá, várias vezes eu tentei descobrir se alguém me espiava. De repente, lá estava ela novamente, silenciosa, escura, calma e mortal. Eu não consigo me mexer, mas também, não como se quisesse, eu fico tentado a perguntar de onde veio e o que quer, mas ouvi um barulho alto vindo detrás de mim e, quando voltei, ela não estava mais lá. Talvez eu devesse andar menos por ali...
Vejo que os inquilinos do meu lago, começavam a se acalmar, algo confortante para mim. No dia seguinte,sem mesmo me levantar da cama, eu já sentia uma das piores sensações que um ser humano pode sentir, o frio despreparado, congelando cada fio de cabelo e me fazendo ficar praticamente imóvel. Sai da cama, mas levei-a comigo também, eu estava vestido de uma maneira que, comparando-se ao frio do lado de fora, estaria completamente nu. Quando abri as cortinas, não pode ser, eles nunca me deixavam em paz, aqueles inquilinos que vem ao lago nunca se cansam?
Estava estupidamente frio e, infelizmente como qualquer outra manhã, não tinha memórias do dia anterior.
Vesti as roupas mais quentes que pude achar e desci até o lago para questionar os inquilinos, como podem estar se divertindo nesse frio? Mas mais importante, no meu lago! Isso é imprescindível, me senti desconfortável com a ideia de eles brincarem em algo tão majestoso e honroso como o antigo rio enferrujado.
– Que pensam que estão fazendo no meu majestoso lago enferrujado!?
Eles me ignoraram, como são rudes, deveriam estar agradecidos que estou lhes deixando se divertir em meu lago! Como eu pensava de uma maneira besta, até hoje me pergunto por que não os ignorei, mas, ao invés disso, voltei para minha casa, frustrado.
Ao olhar novamente pela minha janela coberta por neve, vejo silhueta que tinha avistado meses (ou até anos) antes, apenas me encarando, a sensação horripilante toma conta novamente de mim, agravadas pelo frio. Fecho as cortinas freneticamente e, por conta do frio, decidi encerrar o dia e tentar dormir mesmo com o som das pessoas no fundo.
Horas dentro de um sono profundo, sou acordado por um estrondeante grito vindo da mata, se me recordo bem, era entre as 2:30 e 3:00 da madrugada. Sai correndo em busca de roupas quentes e uma lanterna para ver de onde vinha o grito. Em ainda não tinha reganhado todos os meus sentidos, fui acordado de surpresa, eu ainda estava ambíguo, metade acordado, metade na cama, eu não andava, cambaleava. Andando pela minha casa, tentando achar uma saída, começo a notar coisas suspeitas. Primeiro, marcas de bota, cobertas de lama e neve, “Mas eu não me lembrava de ter saído, deve ter sido algum daqueles inúteis do lago tentando me pregar uma peça”. Continuo a cambalear, apenas para encontrar, perto da fogueira, nas paredes da sala, marcas vermelhas que pareciam ter o formato de mãos, a cor escorria da parede em um ritmo lento e horripilante, tanto que parecia ser sangue...
Me aproximava da porta da frente e, estava aberta, “Estranho” pensei, “Eu sempre tranco esta porta! Como suspeitava, só podem ser os malditos do lago”, prossegui para a porta dos fundos, o barulho parecia ter vindo de lá. Quando passo pela pia, algo chama minha atenção, se não estava completamente acordado antes, acabo de ficar.
Jogado em minha pia, uma cena das mais sanguinárias e horrorizastes que alguém em meu estado poderia encontrar. Uma faca, completamente coberta de sangue, era tanto que ela parecia ser feita do horrível líquido. Grosso e assustador como era, não parava de escorrer da faca, “Como isso é possível? Eles não devem ter feito isso...Não, eles são pessoas desprezíveis, devem ter matado alguém e colocado a culpa do solitário do lago, que mais clichê!”. Quando olhei novamente para a faca, eu senti aquela sensação, a sensação fúnebre e horrorosa que sempre sentia quando aquela silhueta estava por perto..., mas..., não pode ser...
Pela janela da cozinha, no meio da neve, lá estava ela, me olhando, me desprezando, nessa hora não pude resistir, sai correndo em sua direção. Adentrando a nevasca, percebia que havia algo deitado no chão e, ao chegar lá, descubro que na margem do velho, majestoso e congelado lago enferrujado, estava um corpo de uma mulher jovem, marcas de cortes profundos e ensanguentados em seu pescoço e corpo e, ao lado dela nada mais do que uma maleta escrita com uma etiqueta que dizia“Petúnia”.
Caio no chão, ajoelhado, quem seria ela? Seria um dos inquilinos do meu lago? Poderia ter sido eu o monstro que fez tamanha atrocidade com uma pessoa tão jovem e tão bela? Deve ser aquela silhueta, ela deve estar espionando meus inquilinos e a mim este tempo todo apenas para nos matar. Ouço um barulho de passos ao longe e vejo a silhueta, me encarando, me vendo sofrer. Me recompus e gritei para ele:
– O que faz o senhor parado aí, sem me ajudar em uma situação tão frágil como está aqui? A meu ver, o senhor parece um personagem desumano nesta existência que chamamos de vida e nada mais!
Houve um silencio assustador, nós dois e um corpo, mais ninguém, de repente, o silencio é quebrado por um barulho ao longe, quando me viro ver o que aconteceu, ele desapareceu.
Volto ao chão para tentar levar a pobre mulher até minha casa para lhe dar ajuda. Quando me levanto, fico estático, o frio penetra o meu corpo como se eu fosse um fantoche. Eu consigo sentir meus órgãos lentamente parando de se mexer e meu coração, batendo cada vez mais fraco. Olho para baixo, tenho um choque quando vejo, para meu desespero e azar, a faca de minha casa, atravessando meu corpo, derramando sangue de sua ponta afiada.
Caio novamente ao chão, mas, dessa vez, não poderia me levantar. Quando viro minha cabeça, eu a vejo, a silhueta, ainda não poderia ter certeza, meus olhos já estavam me enganando a esse ponto. Ela se agachou e, com um tenebroso ar mortal, sussurrou em meu ouvido:
– Agora você tem o majestoso lago, somente para você, e tudo o que lhe custou, foi me deixar tomar conta de você...
Para minha surpresa, agora eu o reconheci, e imediatamente me arrependi. Era uma voz velha, familiar, tão familiar que antes de me encontrar com a. fria e fúnebre morte, a reconheço. A voz me parece tão familiar, pois esta seria a minha própria voz.





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