O som das gotas - Uma pequena história
- E. R. Recco

- Oct 4, 2020
- 3 min read
A chuva. Uma das mais longas companheiras da humanidade. Sempre nos servindo de reflexão. Apesar da tristeza e da irritação que as vezes ela pode nos causar, sem a chuva nós não teríamos com quem desabafar nas mais tardes e sombrias horas da noite. E mesmo que essas duas sempre andem juntas, não devemos olhar para a chuva e enxergar uma inimiga, e sim uma lembrança de que até a escura e dominante noite precisa de alguém para acompanhá-la.
Talvez fosse isso que passava pela cabeça de Will enquanto ele caminhava pela chuvosa rua Chesterfield, com apenas alguns postes mal acesos para iluminar o caminho. A cada batida de uma gota de chuva em uma folha de uma árvore, sua cabeça borbulhava com pensamentos fulminantes sobre os porquês da vida.
- Por que será que não gostamos de nos molhar se, eventualmente, tudo estará seco?
E então começa Will, a pensar. A quase infinidade da toca do coelho de Alice nem se compara com a da mente de Will quando começa a pensar.
Uma gota bateu.
- Por que temos essas manias e alguns nojos para com a vida ao invés de apreciá-la? Afinal, não temos só uma?
Uma gota bateu.
- Será que temos só uma? Se não, quem sou eu? Quem fui? Quem serei?
Will não acredita em Deus, ou melhor, Will não acredita em um Deus. Ele enxerga problemas com todas as religiões, porém as suas mensagens ressonam com tanta profundidade dentro dele que ele não pode ficar por fora delas. Will possui múltiplas religiões. Agora, como ele se arranja com os diferentes rituais e sacrilégios de cada religião? Você terá de perguntar isso a ele, não é só porque sou narrador que sei de tudo.
Uma gota bateu.
- Será que é decidido quem você será? Existem parâmetros? Quais são eles?
Uma gota bateu.
- Como me saí em minha última vida, se é que tive uma? Será que fui conhecido? Será que se eu for a uma biblioteca agora, eu irei encontrar algo sobre minha vida passada?
E é nesse momento que podemos perceber que a toca é mais profunda do que imaginávamos. Por quê? Ora, não só pelo fato dele acreditar que alguma biblioteca estaria aberta a essas altas horas da noite, mas também porque Will sabe que, se tivesse uma vida passada, ele não poderia se lembrar de nada sobre ela. Afinal de contas, se lembrasse, não teria dúvidas sobre o assunto, não é mesmo?
Mas sua mente o faz esquecer todos esses fatos, as perguntas estavam boas demais para ele retroceder agora.
Uma gota bateu.
- Será que fiz o bem em minhas vidas passadas? Será que fiz o mal? Será que importa?
Will não está na melhor das situações, nossa história começa apenas com um homem solitariamente andando em uma rua escura e chuvosa, você ainda não sabe o porquê dele estra andando por aqui para início de conversa. Vamos apenas dizer que a vida de Will não está passando pelos seus melhores momentos.
Uma gota bateu.
- Será que há consequências para os que fazem o mal?
Uma gota bateu.
- Será que foi isso o que o Sr. McKinley quis dizer quando ele me deu as más notícias?
Uma gota bateu.
- Será que foi por isso que ela me deixou?
Will tem problemas em sua vida, e quem não tem? Seria inumano de sua parte se levasse a vida perfeita. Esse Sr. McKinley de quem ele fala era o seu chefe. Note o pretérito. E essa senhora misteriosa que o deixou seria Ellie, maravilhosa mulher, Ellie. Will a amava com todas suas forças, uma pena que ela pense o contrário.
Uma gota bateu.
- Será que cometi tantos erros em minhas vidas passadas e a única punição a par seria me privar do maior sentimento que existe: o amor?
Uma gota bateu.
- Será que vale a pena uma vida sem amor?
Uma gota bateu.
- Será que perceberão se eu sumir?
Uma gota bateu.
- Será que eu importo?
Chegamos. Número 67, Rua Chesterfield, a casa de Will. Ele entra e tranca a porta como se fosse a última coisa que fosse fazer. Ele joga seu casaco ensopado em algum lugar perto da lareira, que já estava queimando faz um tempo, para que possa se secar. Ele sobe as escadas rapidamente até o segundo andar e para dentro de seu quarto, ele se prepara para dormir e a casa escurece como num assoprar de vela.
Will se deita. Seus olhos ainda abertos, com nenhuma intenção de se fecharem. Essa vai ser uma noite longa.
Uma gota bateu.





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