top of page

O quarto dos espelhos - Conto

  • Writer: E. R. Recco
    E. R. Recco
  • Sep 5, 2020
  • 8 min read

O ano era 1920, eu morava em uma cidadezinha nos Estados Unidos chamada Supai, mas por ter lutado na Grande Guerra (que havia acabado há quase dois anos), ganhei uma posição social avantajada e me mudei para Nova Iorque e, então, para Madri, na Espanha.

Eu havia crescido em uma casa agitada, meu pai era um vendedor e minha mãe ficava em casa, desde cedo aprendi os valores do trabalho duro e do respeito. Sempre fui fascinado pela arte, meu pai não achava uma boa carreira, mas eu sempre o ignorava, um dia minha mãe me deu de presente um livro de desenhos e então me disse:

-Não conte ao seu pai!

Acho que eu sempre tive laços mais fortes com minha mãe do que com o meu pai, isso me fez falta de vez em quando, mas continuei com a minha vida.

Eu era um motorista da cruz vermelha durante a guerra, vi muito sofrimento pela minha vida e esta guerra conta com a maioria, quando ela acabou, queria ser um pintor então me mudei para Madri e me inscrevi na Academia Real de Belas Artes de São Fernando.

Quando entrei na academia, percebi que o prédio era antigo e muito bonito e coberto de pinturas. Foi fundada em 1744 e o prédio era um palácio comprado pelo então rei da Espanha.

Pensei comigo mesmo “Se o prédio apresenta estrema beleza, eu imagino que a qualidade do ensino deve ser de se desejar”.

Fiz minha inscrição junto com uma demonstração (uma pintura no estilo romancista) e sai. Me estabeleci em um hotel próximo à academia, uma semana depois de ter feito minha inscrição, para minha surpresa, eu havia sido aceito, assim que os diretores olharam minha pintura, sabiam que me encaixaria muito bem em sua academia. Neste momento eu me enchi de alegria, mais do que um soldado no meio das trincheiras, com toda a lama, doenças e o pensamento de que poderia morrer a qualquer momento, ser dito de que ele poderia voltar agora para sua casa, mulher e filhos e esquecer essa vida cruel e desnecessária.

No dia seguinte sai para comprar meus materiais de pintura que a academia requisitava e então fui para uma loja também próxima chamada “La ilusión de la reflexión”. A ilusão do reflexo. Imaginei que seria uma metáfora para se referir a um autorretrato, mas eu estava muito errado.

A loja era antiga e cheia de pinturas nas paredes com vitrais de catedral. Me aproximei do balcão e um senhor de idade avançada se aproximou:

- O que deseja jovem?

- Acabei de ser aceito na academia real e estou procurando por materiais de pintura.

- Ah! Mais um futuro Goya espero, acho que tenho o que procura!

Ele me diz para esperar enquanto procurava e então entrou em uma salinha de depósito.

Não sei se minha mente tinha entrado no estranho reino da insanidade, mas poderia jurar que escutava minha voz ecoando de algum lugar desta loja.

Quando me virei, percebi uma fresta em uma porta de uma sala escura e dela escutava: “Venha ver os espelhos!” ecoando repetidamente. Me deixei levar e entrei neste cômodo escuro.

A porta se fechou a traz de mim e uma luz se acende no quarto e revela vários espelhos antigos cobertos por diferentes véus empoeirados, e a voz continuava a sussurrar: “Venha ver os espelhos”, e então, fui tirando os véus e os espelhos estavam organizados de uma maneira que meu reflexo aparecesse replicado em todos eles, eu fiquei admirado por tal fato, mas algo extraordinário estaria para acontecer. Quando eu me aproximei de um espelho para tocá-lo eu senti como se estivesse tocando uma superfície não sólida, mas líquida e então, pelo meu descuido, eu acabei por mergulhar dentro de um dos espelhos.

Abro os olhos, estou deitado no chão da sala, me levanto e me sinto meio tonto, penso que acabei passando mal e tudo havia sido um sonho bem elaborado, mas percebi que a sala, na verdade, tinha apenas um espelho que estava a traz de mim.

Saio pela porta para encontrar o mesmo senhor no balcão, sem meus materiais, me aproximei e perguntei:

-Olá senhor, você teria os materiais que requisitei?

-Quem é você, jovem?

-Eu havia acabado de entrar e pedi por meus materiais, o senhor entrou em uma salinha e cá estamos.

-Sinto lhe informar, mas eu não sei do que o senhor está falando.

Enfurecido pelo mau tratamento que recebi da loja, saí frustrado. Então, fui para a academia para me explicar e tentar arrumar alguns materiais.

Quando cheguei na academia, me expliquei e perguntei se poderiam ao menos indicar uma outra loja mais competente. Perguntaram por meu nome e alguns documentos para checarem minha inscrição, quando a balconista acha minha inscrição, faz uma cara de confusa e me informa que, infelizmente, minha inscrição havia sido rejeitada.

Nesse momento eu entrei em pânico, como minha inscrição poderia ter sido rejeitada se ontem haviam confirmado o contrário? Eu implorei que checassem novamente seus registros e dissessem que eu havia sido aprovado, mas tal coisa seria impossível.

Saí do prédio e achei que esse lugar não era onde eu estava e pensei: “Será que aqueles espelhos têm algo a ver com isso?”. Assim, voltei correndo para a loja onde havia saído frustrado minutos antes e fui em direção a porta do quarto de espelhos:

-Onde está indo, rapaz? - perguntou o senhor da loja

-É complicado, talvez o senhor não acredite em mim, mas eu acabei de ser sugado por um espelho nesta mesma loja naquela sala e acho que estou em uma espécie de universo paralelo

-Pois pare de achar, e comece a acreditar.

-Como assim?

-Aquela sala que o senhor entrou não tem espelhos e sim portais para outras dimensões, e se o que o senhor me diz é verdade, então temos que retorná-lo para sua dimensão o mais rápido possível. Apenas temos que achar o “espelho” certo

-Também acho, mas isso será fácil, quando cheguei aqui, apenas avistei um espelho então apenas tenho que atravessá-lo e...

Quando entramos na sala, ela estava repleta dos mesmos espelhos de anteriormente:

-Mas, Como? Alguns minutos atrás havia apenas um espelho

-Eles costumam reaparecer para confundir os curiosos – disse o senhor -E, antes que vá, isto é para caso me encontre e precise de ajuda. – Ele me entregou um pedaço de papel dobrado escrito “Pablo”.

Então, com todo o medo do mundo eu mergulhei em um dos espelhos e, como antes, estava na mesma sala e apenas um espelho.

Saí da sala e lá estava o senhor encostado no balcão de sua loja. Quando ele me avistou, fez uma cara de espanto e de alegria ao mesmo tempo:

-Meus olhos estão me enganando ou estou vendo O Famoso Pintor! O pintor que estudou na academia real! A assinatura T.F. nas grandes pinturas romancistas do século! Na minha loja! Eu ainda lembro do dia em que veio comprar seus materiais.

Me sinto confuso e alegre ao ouvir tal saudação. Pelo visto, nesta dimensão, eu não apenas havia sido aceito pela academia como me tornei um de seus mais renomados estudantes. Percebo também que viajei no tempo, pois havia me formado a vários anos:

-Estou lisonjeado pelos seus elogios, mas eu acabei de atravessar um portal disfarçado de espelho, bati minha cabeça em um chão duro e quero voltar para casa – o entreguei o bilhete.

-Ah! Compreendo! Bem, vou ajudá-lo a voltar para sua realidade. Preciso apenas de um pouco de tempo para inspecionar os espelhos para não cometer nenhum erro.

-Certamente! Voltarei daqui uns dez minutos.

Então saí da loja para as ruas e, enquanto andava pelas calçadas, todos me olhavam com surpresa e fui em direção a academia. Quando entrei no prédio, aplaudiram minha chegada e o próprio diretor da academia Zachary Taylor, estrangeiro, mas entendia mais do que ninguém de arte, veio me dar um aperto de mão e um tour na minha velha escola, e ainda tive a oportunidade de dar uma aula sobre diferentes padrões de cores.

Deveria ter retornado em dez minutos, mas sinto que se passaram duas horas. Voltei ofegante para a loja para me deparar com o senhor impaciente:

-Até que enfim! Eu descobri o espelho certo e estou pronto para manda-lo de volta.

-Mas preciso mesmo?

-Como assim? – disse o senhor.

-Essa realidade parece muito melhor do que a minha, não poderia ficar aqui?

-Meu jovem – disse o senhor, se aproximando de mim -Se você ficar aqui, nesta dimensão, esta ficará com dois vocês e isso fará com que as duas realidades sejam aniquiladas por completo!

Não sei se senti saudade de minha realidade ou foi o medo que senti pelo discurso do senhor, mas eu saí correndo em direção a porta do quarto de espelhos.

Que besteira a minha, por causa de minha correria, eu teria escorregado batido em um dos espelhos, que acabou por se quebrar, e entrado em outro.

Quando me levantei, me surpreendi por não acordar em uma sala, mas sim nos restos de uma! Está nova dimensão seria uma distopia em que toda a Europa estaria sobre o regime de um ditador cruel e seu exército vermelho.

Estava me limpando quando um grupo de soldados me avistou, sai correndo na outra direção e, para minha surpresa, acabei esbarrando em outro grupo de soldados:

-Onde está o uniforme?

-Eu não possuo um uniforme, deve estar me confundindo com outra pessoa

-Pare de brincadeiras, 466, vá se vestir e já para sua estação!

Dois soldados que estavam atrás dele me arrastaram até um vestiário. Me vesti e saí para um campo de treinamento, e, depois de alguns exercícios físicos repugnantes, consegui convencer os supervisores de que deveria ir a outro posto por conta de uma “ordem superior”. Eles fizeram uma expressão preocupada, mas me deixaram ir.

Corri em direção aos escombros da sala dos espelhos e, infelizmente, o primeiro grupo de soldados que haviam me avistado anteriormente estavam me perseguindo, consegui dispersá-los, mas por apenas alguns instantes.

Estava desesperado tentando adivinhar o espelho certo para entrar, não gostaria de acabar em outro lugar horrendo como esse, ou até pior.

Quando os soldados estavam quase por me achar, eu a escutei, de um dos espelhos, uma voz velha:

-Garoto!? Onde você está!? Estou com os materiais que me pediu!

Era a minha dimensão! Corri em direção ao espelho logo quando os soldados haviam me encontrado.

Bati a cabeça, uma das melhores sensações que senti. Saí do quarto para encontrar o senhor no balcão, bem onde estava antes. O dei um abraço, o senhor, confuso, me perguntou o porquê de tal gesto e eu o respondi:

-Finalmente o senhor está aqui com meus materiais no seu balcão

-Se soubesse que era tão impaciente, teria mandado buscar seus materiais você mesmo! – disse o senhor perturbado.

-O senhor entendeu errado! Calma, irei explicar tudo!

E então contei de minhas aventuras pelas dimensões. Quando terminei de contar, voltei para o quarto, e, com toda minha força, joguei os espelhos em direção ao chão fazendo com que todos quebrassem completamente. Não queria que ninguém se arriscasse do mesmo jeito que eu.

Peguei meus materiais, me despedi do senhor e fui embora, em direção academia para minha primeira aula.

Às vezes me pergunto por que não havia ficado na realidade em que era um artista mundialmente conhecido? Apesar dos riscos, seria milhares de vezes melhor do que a minha verdadeira realidade. Penso que sentiria saudade do carinho excessivo de minha mãe e as críticas de meu pai, mas realmente acho que não permaneci naquela dimensão, pois minha carreira, minha imagem e minha vida não foram traçadas por mim e talvez seria uma pessoa muito mais diferente do que sou agora.

Com isso percebi que a característica que mais prezo, e que você, caro leitor destas memórias deveria também, é nada mais nada menos do que a nossa originalidade.


Comments


bottom of page