O ponto de ônibus - Uma pequena história
- E. R. Recco

- Sep 6, 2020
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É o calor intenso de um sol a pino que, nesse dia completamente livre de nuvens, me doe o pescoço na minha incessável caminhada por essa paisagem árida e vazia, uma paisagem que se assemelha muito a um deserto, com uma estrada feita apenas pela simples sensação do calor ardente que me dava a ilusão de um caminho trilhado.
A razão de estar aqui me é desconhecida, uma vez que não sei como cheguei até aqui. Minha memória mais vívida inclui apenas minha jornada pelo calor desse possível deserto, será tudo isso apenas uma ilusão? Uma construção figurada da mente de um andarilho solitário as margens da loucura? Ao longe, apesar da leve cacimba, eu conseguia observar uma figura estranha, ao chegar mais perto, logo percebo que são duas.
Um homem vestido de roupas mais antigas com um longo casaco preto e um chapéu largo em sua cabeça, encostado ao que parecia ser uma espécie de poste sem nenhuma marcação clara nele. Em seu rosto estava a expressão de espera, uma espera que já vem ocorrendo a um tempo considerável, como se tivesse esperando para que um botão de flor floresça ou o tempo de ver o caminho de uma formiga, vagando, lentamente trabalhando para sobreviver, por uma estação inteira, para que possa ter a próxima.
Eu fico surpreso quando observo essas qualidades na natureza, sempre as admirei, a capacidade de se adaptar e a força de vontade que nem mesmo o mais bondoso dos humanos teria a chance de alcançar, podemos levar em consideração as formigas, como podem serem seres tão pequenos e ao mesmo tempo tão gigantes? Elas, apesar de pequenas, carregam dezenas de vezes um peso maior do que o seu próprio e o fazem a cada outono para que possam permanecer tranquilas no inverno. Elas fluem em tal harmonia que nós apenas sonhamos em ter, talvez algum dia a tenhamos. A natureza é talvez mais complexa do que a própria vida que contém.
Quando me aproximei, esse homem não mostrava nenhuma surpresa, confusão ou felicidade com minha chegada, ele apenas ficou parado, encostado no poste, olhando para o horizonte infinito em contemplação.
-Posso lhe fazer uma pergunta? - digo eu, tentando achar algum sentido para aquela situação.
- Você já a fez.
- Como assim?
- Ao me perguntar se poderia fazer uma pergunta, você já está perguntando, não? Mas fale que vou tentar responder.
- Onde estamos?
- E quem sou eu para saber?
- Mas o que você está fazendo aqui?
- Esperando.
- O que?
- Um ônibus.
- Como assim?
- Um ônibus, horas? Não sabe o que é um ônibus?
- Claro que sim, mas eu quis dizer, como você pode estar esperando por algo em um lugar que você não conhece? Você sabe se esse tal ônibus virá?
- Não.
- Mas sabe onde estamos?
- Não.
- Então o que está fazendo?
- “O essencial é invisível aos olhos”
- Como?
- O Pequeno Príncipe, nunca ouviu falar?
- Sim, eu já ouvi falar, mas o que isto tem a haver com a nossa situação?
- Pois bem, pensemos um pouco, pelo o que me parece, você é apenas mais um andarilho a passar por aqui, ou seja, está perdido e confuso, assim como eu, então qual seria a melhor maneira de escaparmos daqui?
- O ônibus.
- Exato! Um ônibus invisível!
- Não existe tal coisa como um ônibus invisível
- Invisível para os seus olhos!
- Então, você está esperando por algo que você não pode ver?
- Não exatamente.
- Então como você sabe que ele já não lhe passou?
- Porque eu sei como se parece o ônibus.
- E como é?
Ele ficou em silencio. Seu rosto com um leve sorriso passou a leve impressão de que a resposta seria óbvia, então, parei para pensar. Como é possível que haja alguma coisa que é invisível aos olhos e ainda sim, nós poderíamos saber o que é?
Depois de um tempo, eu consegui iniciar uma teoria: Como nós não podemos ver o ônibus porém nós sabemos como ele é, isso já está implantado em nossas mentes, um conhecimento inato, mas nós não nascemos sabendo o que é um ônibus, então, do que ele está falando?
Foi aí que percebi. Sou eu. Ele está se falando de mim, na verdade ônibus é uma metáfora, eu sou o ônibus, eu sou invisível aos meus olhos e ele está esperando por mim para que ele possa sair deste lugar.
Após lhe contar meus pensamentos, seu rosto foi preenchido por um sorriso de orgulho, eu havia desvendado, porém eu ainda haveria de lhe perguntar mais uma coisa:
- Já que não existe ônibus, como sairemos daqui?
- Andando.
- Mas nós não poderemos ficar ainda mais perdidos?
- Talvez sim, talvez não. Essa paisagem é sorrateira, porém com os certos pensamentos, nós podemos moldá-la ao nosso prazer.
E então lá fomos, nós dois. Dois andarilhos, sem destino a não ser o de encontrar um por quê para tudo isso. No caminho, ele foi me contando sua história. Ele me diz que vêm de uma terra parecida como essa, porém completamente diferente, uma terra em que as coisas floresciam como mágica e que, caso ficasse perdido, sempre poderia criar uma saída. Porém essa terra, árida, solitária e morta está destinada a se tornar assim como a dele, uma vez que sua terra também fora assim um dia, essa precisa apenas de um esforço e carinho para que ela também floresça. Por isso estava aqui, ele queira acompanhar seu amadurecimento, ele sempre foi um guia para as pessoas que vinham de terras como essa e queriam navegar por elas sem se perderem na sua imensidão árida e então, precisavam de um guia para a jornada, e ele sempre os ajudava, assim como ele está me ajudando agora.
- Eu nunca havia perguntado seu nome - disse eu, curioso.
- Dimiourgos.
- Que nome peculiar.
- Eu o acho interessante, cheio de mistério, nunca tive vontade de descobrir o que significa.
- Por que não?
- Porque tiraria o interessante.
Enquanto andávamos pela paisagem, eu apenas contemplava, admirando a solidão enquanto pensava no que ele havia dito. Se em sua terra era tudo majestoso, então por que vir a essas terras confusas e complicadas? Será tudo apenas um grande ato de caridade? Ajudar os em situações piores Mas, se ele disse que sua terra também já foi assim algum dia, então esta será majestosa também, então para que ajudar? Pensei em perguntá-lo, porém, utilizei seu próprio argumento. Tiraria o interessante da viagem.
Então, continuei a admirar e contemplar. Por mais que eu queira acreditar, não posso imaginar essa terra de um jeito melhor, ela parece tão solitária e morta que não poderia vir a se tornar algo tão majestoso como ele me descreveu, mas então pensei, não seria isso o princípio da vida?
- Bela interpretação.
- Pode me ouvir?
- Pensamentos são apenas as palavras e sentimentos sobre o mundo que temos medo de dividir com o resto do mundo e, se são palavras, podem ser ouvidas.
- Então você pode ouvir pensamentos?
- Posso ouvir apenas palavras sem sentido que tem de serem organizadas em uma ordem para que formem o pensamento. Uma ordem que é diferente para cada pessoa.
- Então como pode saber o que estava pensando?
- Eu não sei. Apenas deduzi.
Cada vez mais fico intrigado por essa terra e este homem, Dimiourgos. Voltei a pensar se tudo não seria fruto da ilusão? Porém, eu percebi que isto teria de ser real, pois o imaginário nunca poderia ter criado a complexidade do pensamento, porque algo que pensa tem de existir, portanto, tudo isto seria real.
Esta revelação apenas traz mais medo, porém também traz a curiosidade. Onde estou? Como cheguei até aqui? Como saio? Qual a razão deste lugar? Teria de descobrir tudo ao longo de minha caminhada infinita com Dimiourgos, ou pelo menos espero descobrir.





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