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O Método Mariposa

  • Writer: E. R. Recco
    E. R. Recco
  • Apr 19, 2021
  • 3 min read

Nesses tempos incertos em que estamos vivendo, eu parei para pensar um pouco sobre o passado e acabei lembrando de uma história de quando eu estava no 2º ano do fundamental. Eu estava estudando sobre o bicho da seda, um inseto que se enrola em um casulo e que usamos os seus fios para fazer a seda, e eu os achava coisas incríveis, afinal, eu só tinha visto animais sem ser cães e gatos nas fotos, então um inseto assim que eu nunca tinha visto antes, me fazia sentir como um biólogo próprio. O bicho da seda mais come folhas de amoreira e eu tinha ido para o sítio dos meus avós e trazido um saco de folhas de amoreira para dar a ele.

Mas, para a minha surpresa, minha professora me disse que nós não poderíamos mais alimentar ele e eu fiquei muito triste. Então, ela me levou para o laboratório onde o bicho da seda estava e ela me mostrou dentro de uma caixinha uma mariposa e disse: “É assim que eles vão ficar depois, sabia? Mas não conta para ninguém”.

Isso realmente fez o meu dia, eu me sentia como alguém super importante, guardando um segredo hiper confidencial. O jeito como ela lidou com toda a situação me deixou realmente marcado, se fosse uma situação diferente, eu provavelmente teria me sentado e ela tentaria me acalmar com os típicos: “Não tem problema” ou “Depois a gente pode alimentar”, entre tantas outras coisas.

Isso me fez pensar como uma simples atitude como essa, um método diferente, pode criar um impacto assim na vida de alguém. Porque a minha professora não só me mostrou a mariposa, ela me mostrou empatia. Ela mostrou simpatia pelo meu desejo, ela entendeu o que eu senti e não me disse para parar, para deixar disso, para me acalmar, ela simplesmente me levou e me deu um outro motivo para estar feliz aquele dia. Antes, eu achava que iria alimentar o bicho da seda, depois, acabei descobrindo a vida.

São essas pequenas ações que mudam a vida das pessoas, que tornam a experiência de uma escola melhor, fazendo com que os professores tenham e pensem em maneiras inspiradoras de resolver problemas. Agora, essa experiência, por mais que não me deixe tão marcado como foi na época, me faz lembrar dos bons tempos, das alegrias, como eu poderia ser tão feliz vendo um bicho se enrolar em seda e virar uma mariposa? Talvez eu nem estivesse interessado na mariposa naquele momento, ou em alimentar o pequeno inseto, mas eu fiquei tocado pelo gesto, por ela confiar essa informação comigo e com mais ninguém.

E além dessas, houve várias outras experiências na escola que me moldaram e me fizeram o que sou hoje, mas com certeza essa foi uma das primeiras, uma das que abriu minha mente primeiro, o primeiro fio de seda no longo casulo da minha educação que, aos poucos, foi se fechando, fechando, fechando... E então, como do nada, eu saí daquele casulo uma mariposa, alguém novo, alguém transformado, tudo porque eu tive a brilhante ideia de catar um monte de folhas de amoreira.

Também é interessante pensar, o que teria acontecido se eu tivesse dado a folha para o pobre inseto? E se eu tivesse chegado no momento certo? Primeiro, eu não gosto muito dos “E se” da vida, porque tudo pode acontecer, mas, se tiver que realmente dizer, acho que não seria a mesma pessoa que sou hoje, mas não só porque eu não dei de comer a um bicho da seda no meu 2º ano, mas porque eu não teria criado esse primeiro pilar, essa primeira viga no começo da construção do meu casulo. Talvez eu teria o feito no futuro, mas desse jeito, eu ainda não seria uma mariposa, então, o que seria de mim?

Como eu tenho a agradecer a minha professora por ter pensado fora da caixa (e dentro dela também), por ter resolvido a situação de uma maneira diferente dos outros. Isso mostra que até a própria educação precisa de um pouco de aprendizado e mudança com o tempo, mas isso é normal para todos nós, mulheres, homens, crianças e até mariposas e bichos da seda.


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