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O canto dos fumantes - Crônica

  • Writer: E. R. Recco
    E. R. Recco
  • Oct 4, 2020
  • 3 min read

Entre as idas e vindas dessa pandemia, eu estava voltando a pé (com máscara e álcool em gel, é claro) de uma consulta com o meu dentista em que ele finalmente tinha tirado o melhor elemento de tortura que a humanidade já conheceu: o aparelho bucal. Mas no meio de minha caminhada, eu fui pego de surpresa por um cheiro penetrante e norteador, aí lembrei que aquele era o tão famoso “canto dos fumantes”, onde parece que todos os fumantes do bairro combinaram de se encontrarem para perturbar a paz geral.

Claro, compreendo que, para muitas pessoas fumar se tornou um vício e que é sempre difícil tentar sair de um vício, mas devemos todos dar o nosso melhor para poder superá-lo. Mas meu problema é quando todos decidem ir a um lugar específico para fumar.

Antes da pandemia, quando eu ainda andava até a escola, eu sempre que chegava perto do canto dos fumantes lembrava de segurar minha respiração, mas sempre que esquecia, fazia careta logo que a fumaça se dispersasse. O fato de existir um espaço no meio da rua em que todos vão para fumar dá uma má associação na cabeça de todos que passam por ali. Agora, se você veio aqui para me ver falar mal de fumantes, sinto muito, pode já ir mudando a página.

Eu pensei em escrever esse texto não como uma forma de criticar todos os fumantes mundo afora, todos sabemos dos efeitos do cigarro, não é preciso ficar lhes ameaçando com isso todo o tempo. Eu estou escrevendo esse texto pela memória de um dia que já se foi.

Sabe aquela expressão: “Você só sabe o que têm quando você a perde”? Era bem assim que me sentia. Todo dia em que passava por aquele canto ficava silenciosamente julgado os fumantes, mas depois de mais de 6 meses em quarentena, vendo o mundo pegar fogo (literal e figurativamente) e com apenas uma tela de computador para saciar nossa sede por contato humano, quando passei novamente por esse canto, ele me fez lembrar daqueles dias.

Os dias em que eu voltava com meus amigos, todos rindo e contando as malucas ideias que tivemos na aula do dia. Os dias em que, do nada, o Sol decidia aparecer e a temperatura subia de uns calmos 20º para uns perturbantes 30º. Os dias em que começava a chuviscar e eu ficava aliviado por estar perto do shopping. Os dias em que eu saia da escola mais tarde do que meus amigos, mas sempre tinha alguém que me acompanhava e me aturava o caminho inteiro. Aqueles dias...

Enfim, como nós temos tanta coisa, não? Essa pandemia realmente expandiu os horizontes de todos nós, nos fazendo ver coisas que nós nunca havíamos reparado em nossas supostas vidas monótonas. Como eu sinto falta de quando eu podia prender a respiração para não inalar o fumo, ou de minhas caretas ou de minhas incessáveis reclamações sobre o memorável canto dos fumantes.

Quando passei por ele agora, ao invés de me segurar, abri bastante meus pulmões e respirei bem fundo todos os ares fulminantes do canto, ares de memória, ares de amizade, ares de um passado inesquecível.

Meus pulmões começaram a doer depois disso? Sim, claro, ainda era nicotina, as memórias nunca ia mudar isso, mas vou dizer que valeu mais a penas do que qualquer coisa nessa pandemia: poder sentir novamente o canto dos fumantes e, logo em seguida, eu já começava a ver o Rezende falando mais do que o homem da cobra, a Sô rindo descontrolada, Mateus, Pietro, Gui e Tom fazendo suas doidices no canto e a Carol conversando sobre coisas (questionavelmente) úteis.

Como eu amo o canto dos fumantes...


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