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Memórias pelo tempo - Conto

  • Writer: E. R. Recco
    E. R. Recco
  • Sep 6, 2020
  • 17 min read

Para o meu querido amigo, que completa uma dezena e meia de vida.



Estou escrevendo esta grandiosa obra em homenagem de minhas recentes aventuras com um grupo de amigos mais que extraordinário.

Minha vida havia sempre sido meio monótona, entretanto, tudo mudou com a chegada desse jovem rapaz: Gentil, sagaz, corajoso e com belas feições, nada estranho por enquanto, a parte mais inacreditável é como ele conseguiu chegar até minha casa para início de conversa. Acho melhor ele explicar essa parte.

Oi? Me chamo Gustavo, mas me chamam de Rezende e o Theo me disse que eu tinha que escrever como eu cheguei até a casa dele. Bom, eu era um garoto normal. Adoro o teatro, tenho um gosto por matemática e também tenho uma namorada extraordinária. Tudo ia bem para mim até que um dia estava em casa e minha mãe tinha chegado depois de ter ido comprar uns livros e, ela achou um de culinária, sobre receitas veganas através da história e disse se eu queria dar uma olhada.

Eu peguei o livro e ia guardar na biblioteca que temos em casa. Subi na escada pra colocar o livro, aí ele caiu no chão e eu tive que descer pra pegar ele, mas quando eu vi, ele estava aberto em uma receita vegana do século XIX. Quando toquei as páginas do livro, eu senti meus pelos arrepiarem, o livro começou a soltar uma poeira amarela brilhante que começou a ir pro meu nariz, um cheiro horrível, e então, eu fechei meus olhos.

Eu senti que o peso do livro saiu das minhas mãos e eu tava com medo de abrir os olhos, aí eu tomei coragem e eu abri eles e vi...nada. Tava tudo escuro, completamente escuro, mas aí eu ouvi barulho vindo da escuridão e foi então que eu vi, era uma porta! Eu tava num armário! Bom eu abri a porta lentamente, mas eu acabei caindo de cara no chão. Isso assustou o cara que estava sentado na escrivaninha perto de mim.

Eu levantei e ele tava pálido, ele vestia um casaco meio vermelho escuro de veludo, com uma camisa branca por baixo, calças pretas e botas também pretas, tinha o cabelo castanho, estava escrevendo algo com uma pena antiga enquanto uma xícara de chá esfriava ao seu lado. O lugar em si era bem antigo, tudo tinha um estilo bem antiquado:

-Quem é você!?- disse o homem, assustado.

-Eu que te pergunto!

-Theodore Archibald!

-O que?

-Theo

-A, tudo bem, Theo, mas... o que você está fazendo na minha casa!?

-Sua casa? Está com a cabeça nas nuvens garoto? Esta é minha casa, a Mansão Archibald, construída em 1820.

-1820? Nossa! Tá boa pra uns 200 anos!

-200 anos!? Está louco garoto? Acho que a batida deve ter mexido com seu cérebro.

-Como assim?

-Aqui é 1850, em Londres.

-Como assim!?

Eu saí pra ver a janela e eu vi que só tinha prédio velho e carruagem a cavalo na rua, voltei e peguei um jornal e na data estava, 20 de setembro de 1850, aí eu pensei, como assim!? Eu viajei no tempo? Mas isso não é possível! Ou é? Eram muitas perguntas sem respostas. Eu expliquei a minha história pro Theo e a princípio, ele achou que era mentira, mas aí ele percebeu que eu saí de um armário e não tinha como eu ter entrado de outro jeito na casa e ele ficou menos suspeito. Acho que já é suficiente.

Great! Posso voltar a falar com você, meu caro leitor, pois então, como disse o meu caro Rezende, ele havia viajado pelo tempo e espaço e acabou por parar em meu armário. Depois de um tempo de conversas, Rezende me disse que estava eufórico para voltar para sua casa, ou melhor dizendo, seu tempo.

Ele me disse que, havia chegado aqui quando ele tocou nas páginas de um livro de receitas, em uma receita deste século, então nós pensamos que, se achássemos um livro que possuísse uma coisa de seu tempo, ele poderia voltar!

Porém eu tinha uma boa e uma má notícia, a boa era que eu tinha uma biblioteca particular em casa, porém a má é que eu possuo mais ou menos 3.000 volumes diferentes. Procuramos por todos os lados, em cima, em baixo, esquerda, direita e de ponta cabeça e não conseguimos achar nenhuma referência a seu tempo.

Sem esperanças, eu estava prestes a explicar para ele que teria de usar um charque daqui em diante, quando Rezende percebeu um livro escondido em uma estante bem baixa. Um livro empoeirado, porém, novo, quero dizer, para a época pelo menos. Ele o abriu e o livro continha uma biografia da Rainha Victoria e Rezende o havia aberto em uma página em que o autor se perguntava se outras mulheres iriam subir nos níveis e se tornarem mais poderosas como ela:

-Talvez seja isto

-Como você sabe?

-É que no meu tempo, essa questão de direitos femininos é muito discutida. Quem sabe se eu...

Neste momento, meus olhos se fecharam, e não conseguia abri-los, eu achava que havíamos morrido e iriamos nos encontrar apenas no paraíso (ou inferno), porém eu ouvi a voz calmante de Rezende “Tudo bem, geralmente é assim” e me acalmei.

Passou-se alguns instantes e meus olhos puderam ser abertos, a primeira coisa que pegou minha atenção foram as árvores e os pássaros. A princípio pensei que estávamos nas índias, porém, com um simples levantar, pois estávamos deitados, consegui perceber que, na verdade, estávamos em um jardim de uma grande residência, e fiquei desapontado.

Andamos um pouco e logo percebemos, pela maneira dos outros de falar, que estávamos na Espanha, tentamos procurar alguém que possa explicar onde e quando exatamente estávamos.

Depois de muita procura, achamos essas mulheres: uma tinha os cabelos encaracolados, olhos verdes e bochechas levemente rosadas. E a outra tinha o cabelo liso, curto e loiro. Olhos marrons claros, quase cor de mel e estava vestindo um longo casaco. As duas eram baixas em tamanho, porém enormes em atitude:

-Senhora, desculpe a pergunta meio estúpida, mas, poderia nos dizer onde e quando estamos? – disse Rezende para a moça de olhos verdes que ficou meio confusa com a pergunta, porém, prosseguiu.

-Estamos na Residência dos Estudantes em Madrid, no ano de 1924.

-Maravilhoso! E quem seria a senhora?

-Ora, sou Catarina de los Terços, uma brava membra das Sin Sombrero.

-Theo, encantado, esse jovem que me acompanha se chama Rezende. E essa outra senhorita que a acompanha, como se chama?

-Sou Enriqueta Mendes

-Ótimo! Todos apresentados, porém, antes de continuarmos, poderia perguntar o que seria esse tal grupo?

-Por supuesto, este seria um grupo de mulheres que lutam por seus direitos, para que, um dia, possamos ter os mesmos direitos que os homens.

-HAHAHA!!! Mulheres? Direitos? Essa é a melhor piada que eu ouvi em anos - disse eu, sim eu, um ignorante e mais burro eu, porém, eu.

Catarina foi pronta para me entregar um tapa no rosto. Tão forte, alias, que ele me leva ao chão.

Me desculpei e ela, com um ar de raiva, aceitou calmamente minhas desculpas. Porém não tínhamos tempos para tolices como essas, tínhamos que sair dali o quanto antes, então, contamos nossa história as essas formidáveis jovens e elas estavam dispostas as nos ajudar com apenas uma única e estranha condição: tínhamos que levá-las junto conosco por nossas viagens e Rezende carinhosamente aceitou.

Elas nos levaram do jardim da residência ao prédio principal, uma maravilha da arquitetura moderna, um prédio resplendente em beleza. Com um acabamento tão simples e ainda sim, suas paredes nos transmitem a curiosidade e a vontade de aprender e com os novos conhecimentos aqui adquiridos, você se sentiria capaz de explorar assuntos que até hoje continuam intocados pelo ser humano.

Enriqueta nos mostrou o caminho até o segundo andar do prédio onde estava o corredor que nos levava até o acervo de livros onde todas as mentes brilhantes que ali residiam viam para estudar.

Procuramos por todos os lados, porém a maioria dos livros eram didáticos e tratavam de matérias como literatura, ciências, filosofia e matemática, mas nenhum sinal de algo inovador, de alguma mudança social, de algum tema polêmico:

-Poderíamos tentar a biblioteca pública! – disse Catarina, ainda entusiasmada em encontrar uma solução

-Eu sinceramente, não acho que encontraremos muito em bibliotecas públicas, provavelmente em alguma universidade de prestígio! – disse eu.

-Bom, de qualquer maneira eu sei que não vai ser fácil.

BAM! Rezende cai de cara com uma secretária trazendo vários livros em um carrinho para serem adicionados a coleção.

-Eu sinto muitíssimo, senhora – disse Rezende meio constrangido

-Não se desculpe, eu não tinha visto vocês três aí – disse a secretária

-Espere um momento, que tipos de livros a senhora está levando?

-Livros de história, o novo professor havia requisitado eles. São novos, a maioria deles é sobre a Grande Guerra.

-Você não diz! – disse Rezende com um sorriso no rosto – Poderíamos pegar um desses emprestados por um instante?

-Claro! Mas, aonde exatamente vocês...

Rezende pegou o livro e nos arrastou pelos braços até um dos quartos da residência que estava aberto. Ele disse que em seu tempo há muitos lugares em constante conflito e talvez um livro sobre guerras fosse a solução.

Ele abriu o livro e tocou uma de suas páginas, o pó amarelo já começava a aparecer e em todos nós surgiu um sorriso, especialmente em Enriqueta, que estava eufórica para conhecer novos mundos e novas realidades e, para viver a aventura de sua vida, como depois me relato.

Tudo escureceu novamente, como já era previsto. Catarina entrou em pânico, achou que estava cega, e eu estava tentando acalma-la. Um longo tempo se passou, mas nossa visão não havia retornado e isso começava a se tornar um pouco estranho. Quando Rezende percebeu que bastante tempo havia se passado, ele lembrou de como essa viagem começou para início de conversa: com ele preso em meu armário.

Enquanto eu e Catarina rezávamos para que não havíamos acabado no inferno, Rezende deu um empurrão com seu pé para cima e isso fez com que haja luz! Uma tampa se abriu. Quando saímos, havíamos aparecido em um baú empoeirado dentro de uma tenda. Nesta tenda havia uma lamparina no teto, uma cama que aparentava ser dobrável e uma mesa com um rádio e alguns mapas nas paredes.

Não tínhamos a mínima ideia de onde estávamos. Porém, enquanto estávamos pensando, entra na tenda dois homens com roupas de soldado, um tinha feição viril, cabelos pretos, óculos e o outro também possuía feição viril, porém, como depois se apresentou para mim, tinha um dom para humor (o que é admirável em qualquer ser humano). Tinha cabelos castanhos e olhos de mesma cor. Logo que nos viram, puxaram suas armas e as apontaram para nós:

-Quem são vocês?! Espiões alemães? Falem!

-Um momento, nós não somos nenhum pouco alemães, sou até britânico por sinal e, pelas suas roupas e por achar que somos espiões, deve-se presumir que estamos em guerra com a Alemanha.

-Você esteve morando em uma pedra nos últimos quatro anos?

-Somos todos um pouco desamparados. Sou Rezende.

-Theo.

-Catarina e Enriqueta, e vocês?

-Sou Major Finn, a seu dispor. – disse o homem de cabelo escuro

-E eu sou o Tenente Hilbert, prazer, desculpa pela recepção.

-Já tive piores, acredite. – disse eu, me lembrando de um jantar que tive na casa de um amigo, ele nunca foi um bom anfitrião.

Mais uma vez, contamos toda a nossa história e eles não queriam acreditar, porém as roupas, a fala, e o fato de que aparentávamos ter surgido do nada em meio a um campo de batalha, os fizeram mudar de opinião.

Quando saímos da tenda, vimos a movimentação que a guerra cria. Era um campo repleto de tendas iguais as que havíamos saído de, com soldados e caminhões indo de um lado para o outro do acampamento. Pelo o que o Major conseguiu me explicar da situação, os “aliados” haviam invadido a França que estava ocupada pela Alemanha e estávamos no acampamento perto de um local de pouso americano.

Após contemplar a magnitude da operação que havia sido realizada, com todos os homens e máquinas se movendo de um lado para o outro, perguntamos ao Major onde poderíamos achar alguns livros:

-Em tempos de guerra, livros são coisas requisitadas nos quarteis generais, não no campo de batalha.

-Mas o Fox não tem uns livros na tenda dele?

-Tem? Eu não sabia! Fox é o general em comando da operação, talvez a gente possa falar com ele sobre deixar que peguemos alguns livros. Não custa tentar!

Então eles nos levaram pelo acampamento deste tal “Fox”, quando chegamos em sua tenda, notei que era um homem bem peculiar, primeiramente porque não era um homem e segundo que ela teria alguns problemas com... como posso dizer? “Problemas raivosos”:

-MAIS UÁI! Esse trem que saiu de Caen, foi diretamente pra Paris, ERA PRA ELE TER PASSADO AQUI PRIMEIRO!!!

-Fox, esses caras tão procurando por alguns livros.

-E eu lá tenho cara de bibliotecária?! Vai atrás deles você mesmo.

-É que a gente pensou que só você tinha livros no campo.

-E é verdade, mas são minha coleção privada, vai achar seus livros em outro lugar!

-Nossa, eu nunca pensei que uma mulher poderia ascender tão rápido em uma instituição tão machista quanto o exército. – disse Enriqueta.

-Mas pode acreditar querida, não foi fácil! Eu apenas consegui esse trabalho, porque o antigo general chutou o balde muito cedo! Morreu no sono! E os outros covardes aqui, não conseguiam ter a coragem de assumir um cargo tão alto! Aqui o mais alto que chegaram foi o major e só!

Fox se virou e olhou atentamente para Enriqueta, com um rosto sério, ela se virou de novamente e abriu um baú que estava atrás de uma mesa:

-Gostei de você garota! E, afinal de contas, temos que nos ajudar, não é mesmo?

Começamos a remexer no baú, em um certo momento, até Fox, que estava entediada com seus planos de guerra, se juntou a nós na procura do livro. Como já era de se esperar, não achamos nada

Até que eu me sentei na cama de Fox para descansar. Um livro pulou de dentro do cobertor para o chão, Fox estava pasma e meio envergonhada, mas antes de conseguir pegar o livro, Rezende o pegou com a maior rapidez.

Ele o abriu e o livro fantasiava sobre um tempo de paz, um tempo em que tudo isso se acabaria:

-Deve ser esse!

Porém, quando a última palavra saiu da boca de Rezende, escutamos gritos no lado de fora e em seguida, WHAM! Uma bomba havia se chocado com o chão, era uma invasão inimiga.

Corremos desesperados para a segurança, mas quando achamos que estava tudo bem, um homem branco, alto e loiro com um uniforme cinza e outro que aparentava ser oriental vieram em nossa direção:

-SÃO OS MALDITOS ALEMÃES! – exclamou Fox que, logo em seguida disse:

-TOD HITLERS!

-O que foi isso? – disse o major

-Alemão

-Você sabe alemão?

-Seria uma péssima general se não soubesse a língua do inimigo, não?

Corremos em direção a tenda em que começamos nossa história, porém eles nos encurralaram, estávamos à beira da morte e pior ainda, Rezende havia se esquecido do livro. Estavam com espingardas apontadas para as nossas cabeças, estavam prestes a atirar e eu estava preparado para morrer, porém, isso não ocorreu, afinal de contas, estou escrevendo isso, não?

Acontece que Enriqueta, no caos, havia se lembrado do livro e guardado em seu casaco. Neste momento, ela pegou o livro, o jogou no ar e disse:

-Denk schnell nach, Rezende!

O livro deu duas cambalhotas no ar, e atingiu as mãos de Rezende, ele o rapidamente tocou e vimos a poeira amarela subir.

De repente, me vi diante algo inusitado, uma criatura monstruosa, eu não podia acreditar nos meus olhos. Estávamos diante de um GIGANTE DE PEDRA!

-RÁPIDO REZENDE! LEVANTE, TEMOS QUE CORRER!!

-Por quê?

-NÃO ESTÁ VENDO O GIGANTE!

-Theo

-QUE!?

-É uma estatua

-A... É verdade.

Pelo visto havíamos acordado em algum tipo de mausoléu para um grande herói, eu suponho, porém o que mais me chocou, foi que os nossos inimigos haviam viajado conosco, estavam confusos e assustados:

-ONDE ESTAMOS!? – disse o loiro

-Então fala nossa língua? – disse Fox

-Seria um péssimo soldado se não soubesse a língua do inimigo, não?

-Deja vú.

-Identifique-se! – disse eu

-Sou cabo Von Staten e o meu amigo aqui é Akira

-Prazer, mas agora eu acho melhor que façamos uma trégua para que a gente possa sair dessa fria! – disse Fox

-Concordo – disse Akira

Pelo que eu consegui analisar da situação, estávamos em algum tipo de movimentação pública. Todos estavam na rua gritando, carregando placas escritas “Paz e amor” e usando roupas muito coloridas.

-Pera. – disse Hilbert – Isto é Washington D.C.! Estamos em casa!

-As colônias? Nunca pensei que visitaria esse lugar, porém, cá estou!

Enquanto andávamos pela multidão, todos estavam nos olhando assustados, especialmente, estavam olhando para Staten, eu não sei o que estavam tão assustados com ele, apenas estava com uma insígnia budista em seu braço, demostrando sua religião. Quão rude! “Terra da liberdade” uma ova!

De repente, nos aproximaram quatro jovens, três mulheres e um homem e se dirigiam a Fox, o major e ao tenente:

-Vocês poderiam dar um depoimento de quão brutal está sendo a guerra na Ásia para que possamos pressionar o governo para acabar ela? – disse uma jovem de cabelo longo e preto, alta e com uma faixa colorida na cabeça. Vestia roupas completamente extravagantes.

-Guerra na Ásia? Como assim garota? – disse Hilbert

-A guerra no Vietnã!

-Não estamos em guerra com esse tal de “Vietnã”, estamos em guerra com os alemães.

-Do que você está falando!? – disse o único homem do grupo, tinha cabelos marrons, usava óculos, corpo bem definido e tinha muito pelo. Utilizava roupas tão extravagantes quanto a dos outros, com a mesma faixa na cabeça.

-Eu sou a general Fox, lutando com o 32º batalhão americano para a França e não me avisaram de nenhuma guerra com um país asiático, sem contar o Japão.

-Cara, você tá chapado!? Isso é Segunda Guerra, meu velho lutou nela, a gente tá falando de agora – disse uma com os cabelos loiros e os olhos claros, estava repleta de medalhões, amuletos e outros pedaços de bijuteria “hippie”, como depois me explicou.

-Não, ele não tá chapado, deixa eu explicar. – disse Rezende.

E assim Rezende explicou mais uma vez nossa história, desde o meu armário, até a estatua gigante, porém, eles apenas começaram a rir e disseram:

-Pera, pera, pera. Pó amarelo? Agora que vocês tão realmente chapados. – disse a última do grupo. Tinha cabelos marrons, meio descabelada, usava óculos e tinha uma aparência de vidente, especialmente com todas as peças de bijuteria que utilizava.

Enquanto estavam rindo e nós tentando nos explicar, o único homem do grupo se aproximou e disse:

-Quer saber gente, vamos dar uma chance pra eles. Qual de vocês é realmente do passado, tipo, um século atrás? – Eu me aproximei

-Sou eu o “mais velho”.

-Ótimo. Eu vou fazer uma pergunta que só alguém do passado saberia.

-Pode fazer – Eu disse enquanto estava à tona, pensando em vários tópicos diferentes: história, arte, filosofia, política, etc.

-O que eu comi ontem no almoço?

Macacos! Como que eu poderia saber o que este estranho comeu ontem no almoço? A única coisa que eu poderia fazer era tentar, então, com a sorte lançada, eu disse:

-Hmmmm... Sopa de legumes? – houve uma pausa, um silencio e então ele exclamou:

-Gente, esses caras... SÃO DO PASSADO MESMO!! – parece que eu estava com sorte esse dia.

-Maravilha, agora que estão convencidos, poderiam nos dizer seus nomes?

-Sou Gaia – disse a de cabelo longo.

-Luna – a de cabelo marrom.

-Soleis – a loira.

-E eu Áries – o homem

Com todos apresentados, fomos a procura de livros, para que possamos, finalmente, voltar para casa (eu espero).

Luna, nos disse que ela conhecia “um cara com uma van que fazia coisas”, não me pergunte o que isso significa, porque eu ainda não entendi, o importante é que ela disse que ele poderia nos arrumar alguns livros.

No caminho para essa tal de “van”, tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre o que estava acontecendo, eles me explicaram que essa movimentação havia sido causada pela guerra dos Estados Unidos contra um país asiático chamado Vietnã, eles me explicaram, como essa era uma guerra desnecessária e brutal, porém eu não consegui compreender muito das coisas que me falavam já que eles todos estavam, como me diziam “chapados”, ou seja, drogados.

Eu fumei ópio uma vez, foi em uma viagem as Índias, não foi uma boa experiência, vamos apenas dizer que agora eu sou proibido que entrar em alguns territórios do império.

Quando chegamos, a “van” era uma espécie de carruagem mecânica, só que maior e que poderia acomodar mais passageiros. Abrimos a porta e eu achei que Rezende já havia achado o livro pois ela estava infestada de uma fumaça grossa e bem no fundo da van, estava um cara sentado em uma almofada, aparentando tragar uma espécie de fumo.

Seu nome era Jeff, ele era quem tinha os livros que a gente poderia usar. Procuramos em todos os lugares e, depois de muito tempo, Rezende havia achado um livro:

-Não pode ser!

-O que é Rezende. – disse Catarina

-Esse é o livro de receitas que minha mãe comprou pra mim “Receitas veganas pela história”

-É que o Jeff adora cozinhar, não é mesmo Jeff? – disse Soleis que depois se virou para ver “Jeff” apenas acenar com a cabeça da maneira mais estranha possível, é melhor eu manter distância.

Rezende estava pronto, com livro em mãos, começou a se despedir de todos e nos agradecer por nossa ajuda e quando estava prestes a tocar o livro, Áries gritou:

-Espere!

-O que é?

-Você tem certeza de que esse livro te levará para casa?

-Absoluta!

-Então que tal nós curtirmos um pouco ante de você ir?

-Como assim?

-Vamos! Vai ser divertido e o livro não vai a lugar nenhum! – disse Luna

Depois de muito convencer, Rezende cedeu e nós decidimos ir a show de uma banda britânica, recém-chegada as colônias, Gaia disse que era sua preferida e que nós iriamos adorar ela.

Primeiro, nós colocamos roupas mais casuais a época, e, logo que anoiteceu, ela nos levou até um estádio colossal onde a banda tocaria.

Quando o espetáculo começou, todos vibraram, pelo o que eu consegui entender das letras das músicas, eles tocaram títulos como “Penny lane”, “Come together” e “Maxwell Silver Hammer”, essa última era um tanto perturbadora, digamos que ela possui uma letra...peculiar.

Todos tivemos um tempo maravilhoso, porém, tenho que dizer, quem mais se divertiu aparentemente foram Staten e Akira, eles se mexiam e dançavam como se não tivesse o amanhã, acho que, mesmo sendo muito patriotas, abraçavam a ideia de ter que deixar de lutar uma guerra e simplesmente, se divertirem.

Ao final do espetáculo, nunca me senti tão cansado em minha vida, estávamos todos um pouco embriagados e fomos para a casa de Gaia que ela divide com uma colega e colapsamos no chão e dormimos quase que instantaneamente.

No dia seguinte, acordei com a visão turva e a cabeça tonta, tinha sido uma noite louca, maravilhosa, porém, insanamente desgastante.

Nos recompusemos e fomos todos para a van do “Jeff”, acredite ou não, a fumaça persistia na van e “Jeff” ainda sentado em sua almofada. Eu poderia jurar que ele estava morto. Pegamos o livro e Rezende começou a se despedir dos quatro:

-Gente, obrigado por ontem a noite. Nunca me diverti tanto em anos, e vocês também foram ótimas companhias.

-Não tem de quer, menino – disse Soleis

Estávamos todos prontos, com nossas roupas de época e então, Rezende toca o livro e a poeira amarela sobe, porém, ela se mistura com a fumaça da van.

Rezende acorda no chão de sua biblioteca, e o livro havia sumido. Ele chama por sua mãe, nada. Parece que ele está sozinho em casa.

Pensou que tudo havia sido um sonho e ficou um pouco triste, porém, enquanto se levantava ele escutou uma voz, uma voz doce e também raivosa, e essa voz o encheu de alegria:

-Uái sô! Olha que televisor mais estranho!

-Fox! FOX!

-REZENDE! – ele a abraça fortemente.

-Vocês estão todos aqui, não era um sonho!

-Claro que não Rezende! É aqui que você mora? – perguntei.

- Sim! O que achou?

-É pequena, né?

-Theo eu vou te jogar pela janela

-Quer saber, eu amo lugares pequenos!

Todos rimos e nos abraçamos e saímos da casa de Rezende para explorar esse novo mundo!

E essa é nossa história! Todos decidimos que havíamos gostado desta época e decidimos ficar por aqui. Rezende nos introduziu a essa nova sociedade e nos explicou o que fazer e o que não fazer.

Me foi finalmente explicado que na verdade o símbolo que Staten trazia não era um símbolo budista e sim um símbolo que hoje é associado ao antissemitismo e nós rapidamente o tiramos de todas as suas roupas. Ainda temos que segurar ele um pouco pra não dizer coisa que não devia.

Eu continuei sendo escritor, porém Rezende me apresentou a essa maravilha da era moderna: o computador! É muito mais rápido que escrever com a pena e a habilidade de apagar sem borrar o papel é miraculosa, porém eu ainda tenho meus desentendimentos com ele.

Catarina e Enriqueta agora dão aulas em uma escola local e lá, transmitem as ideias das Sin Sombrero, assim formando uma nova geração de garotas empoderadas.

Luna, Gaia, Soleis e Áries viraram ativistas e agora lutam para acabar com a devastação das florestas mundiais.

Fox, Finn e Hilbert, por influência minha, começaram a escrever para o jornal da cidade crônicas sobre suas experiências na guerra, sobre pseudônimos.

E por fim, Staten e Akira. Eles agora são voluntários em um grupo que ajuda pessoas carentes que, para mim já é um grande avanço.

Enfim. Essa foi a nossa ilustre história de viagem no tempo, e nós estamos vivendo com Rezende desde então. Essas foram aventuras magnânimas, incríveis e emocionantes. Nunca iremos esquece-las, foi assim que Rezende me convenceu a escrever essas memórias. Memórias esquecidas sobre experiências que o tempo deixou para traz, mas que ainda queimam dentro de nós que as vivemos de antemão. E com isso, eu digo adeus para você, caro leitor. Um que, com certeza, é diferente ao o que começou a ler essas memórias pelo tempo.


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