Documentos, por favor
- E. R. Recco

- Nov 7, 2021
- 3 min read
Eu não sei você, mas eu tenho um frio na barriga gigante toda vez que tenho que pegar um avião, nem que seja Congonhas-Vira Copos, eu já sinto que vou desmaiar ali mesmo. Agora, junta isso com pegar um avião internacional em plena madrugada, eu já estava quase que desistindo da viagem logo no portão de embarque e, assim que escanearam a minha passagem, vi que já era tarde demais. Canadá, aí vou eu.
Mas, como tudo nessa vida, é mais fácil falar do que realmente chegar lá porque, antes, eu passei por mais dois aeroportos, cada um com o seu “tique” e costume diferente. Primeira parada: Bogotá, Colômbia. Mal saí do avião, já me puxaram para a tão famosa salinha de aeroporto e foi um interrogatório que não acabava mais. “Documentos, por favor” é o que me pediam, checaram tudo até os mais mínimos detalhes, até se a palheta de cores do documento estava correta e, depois de umas 2 horas, eu pude seguir viagem. Então, esperei por mais umas 3 horas para embarcar no próximo voo para Toronto, Canadá, mas isso está longe de ser meu último destino. Chegando em Toronto, tentando me achar por meio os infinitos corredores do aeroporto, descubro que tenho que passar por mais checagens. “Documentos, por favor” mais uma vez. Ótimo, tudo em ordem, mas...espera um minuto, tem mais uma fila para entrar. Mais um “Documentos, por favor”, mais um carimbo e mais um policial olhando feio para mim.
Enfim, finalmente em Ottawa, Canadá. Porém, toda essa brincadeirinha demorou umas 23 horas, quase um dia de viagem para um lugar que, normalmente, estaria a um voo e 14 horas de distância. Ah e, claro, alguns “Documentos, por favor”. Viajar está se tornando cada vez mais difícil e complicado, talvez isso se dê um pouco a crise pandêmica, mas com certeza a gente não pode mais culpar o COVID por tudo, né?
É incrível como os seres humanos são tão bons em repelir a si mesmos, utilizando do disfarce da cautela, da proteção. Existe mesmo a necessidade da checagem de tantos documentos que demoraram mais de seis meses para chegar (um pedaço de papel colorido), apenas para nunca mais ter que usar isso na vida? Essa talvez seja a tática mais perfeita para assustar as pessoas de visitarem algum lugar, encha-as de papelada.
Imagine o quão melhor seria se a gente pudesse só entrar nos lugares? Passando por uma simples checagem de passaporte e então, nunca mais? A eterna burocracia tem de ser eterna? Em um mundo que está cada vez mais cheio de guerras, conflitos e disputas que criam cada vez mais refugiados em necessidade de um punhado de terra para chamar de seu, os países com chão para dar e vender estão cada vez mais repugnados por eles e pelos seus pedidos aparentemente “chocantes”. O melhor caminho seria uma humanidade unida, que oferece ajuda a todos, não mais paredes e checagens e “Documentos, por favor”. Isso ou cadeiras portáveis para usarmos quanto estivermos nas filas.
No meu caso, consegui chegar são e salvo no meu destino, mas pare um minuto para pensar na quantidade de pessoas que não tiveram a mesma sorte que eu e ficaram “a ver navios”, tanto figurativamente quanto literalmente, em seus pequenos botes salva-vidas que são a cara da humanidade. Ainda espero o dia em que vão parar de achar que eu tenho uma bomba escondida na minha mochila, que a minha garrafa de água é, na verdade, ácido sulfúrico e que um carimbo pode ser dado se você souber as palavras mágicas.
Enquanto isso, vamos ter que aturar os policiais intimidadores olhando todos os seus “Documentos, por favor” e te julgando na sua foto do passaporte. Eu vou me aventurando por aqui, sempre escrevendo, quem sabe essa mudança de ares me deixa mais inspirado?





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