Como foi o seu dia?
- E. R. Recco

- Nov 21, 2021
- 3 min read
Existe uma criatura nesse planeta que pode ser o ser mais gracioso e gentil que você vai encontrar, ou a coisa mais nojenta e estranha, depende de quem acha. É claro que eu estou falando deles: os colegas de quarto. Quando você começa a morar com pessoas que não são seus parentes, as vezes a gente acaba não podendo escolher quem essas pessoas são e é daí que nascem os colegas de quarto, todos com as suas manias e gostos, cada um estranho do seu jeito. Mas em contra ponto, você também é um alienígena para eles.
Não foi muito diferente comigo, com a exceção de que eu não morei com 1, nem 2, nem 3 colegas, mas 5. Pois é, imagine 5 marmanjos, cada um de um país diferente, tentando usar o mesmo banheiro, você já consegue sentir o cheiro de quão ruim isso vai dar. Enfim, está sendo uma experiência e tanto, mas eu gosto mais de aprender um pouco com eles. Claro, na maioria das vezes, a gente aprende aquelas coisas que adolescente mais gosta de aprender: como xingar os outros em línguas diferentes e, eu vou ser sincero aqui, acho que as únicas palavras que aprendi em Mandarim, Coreano, Italiano e Tailandês foram palavrões.
Para além dos palavrões, tem também as manias de cada um. Como que o “Gin” tem que, todos os dias depois da janta, tomar uma bebida feita com um pó de aveia e trigo e leite que eu acho horrível, mas ele sempre me pergunta se eu quero um pouco. Ou o Orázio, que a cada 10 palavras que ele fala, 15 delas geralmente são alguma versão de bastardo ou xingamentos variados (olha eles aqui de novo, eu nunca vou escapar).
Mas talvez o mais curioso de todos seja o nosso querido tímido “Mon”. Nos primeiros dias, sempre que ele me encontrava na cozinha ou na sala me perguntava: “Como você está? Como foi o seu dia?”, a coisa mais doce possível para se dizer a alguém que acabou de deixar sua casa a mais de 11.000 quilômetros de distância. Contudo, com o passar das semanas, eu já fui me acostumando mais com a vida canadense e a insistência dele já estava começando a me incomodar. Não me leve a mal, é sempre bom perguntar isso e ser perguntado isso, mas a minha cara de morto às 7:00 da manhã (quando o sol ainda nem nasceu) não quer dizer que eu estou passando por uma situação difícil e que precisa de uma sessão de terapia (a menos que você esteja falando de ter que acordar a essa hora, aí sim eu preciso de uma dessas sessões).
Os outros da casa também foram pegos pela mãozada que ele dá no seu ombro enquanto diz: “Como você está?” e, como adolescentes geralmente fazem, começaram a fazer piada disso. Ele ria junto, achava engraçado também, mas eu acho que estamos olhando isso do jeito errado. Depois que a gente se acalma um pouco mais e para pra pensar, como é bom ter alguém que faz essas perguntas pra gente, não é? Imagine o número de pessoas que estão passando por dificuldades inimagináveis e o quanto elas seriam beneficiadas se pelo menos uma pessoa perguntasse: “Como vai o seu dia? Você está bem?”.
Eu acho que o “Mon” está tentando, pelo menos subconscientemente, nos ensinar uma coisa: humanidade. As vezes, isso pode até te irritar, mas e quando você tem aquela notícia maravilhosa que está desesperado para contar para alguém? Ou quando você está frustrado, triste com alguma coisa e precisa de alguém? Quando você só quer desabafar? De repente, parece que todo mundo quer um “Mon” pra morar com, não é?
Eu não sei se algum dia ele vai entender o que eu estou escrevendo sobre ele, provável que não, ele não fala inglês tão bem e ainda ter que ensinar o português? Acho que ele me mata, ou pelo menos para de me perguntar se eu estou bem...
O importante é aprender com pessoas como ele, o impacto que essas pequenas atitudes podem ter na vida de alguém, ou melhor, na sua vida, na dos seus pais, irmãos, tios, avós, papagaios, que seja. Não vai matar ninguém perguntar “Como vai o seu dia?” e, quem sabe, talvez você possa descobrir algo maravilhoso, ou aliviar alguém de um sofrimento enorme.
Enfim, seja mais como o “Mon”, mas maneire nos xingamentos, aprender isso seria incrivelmente contra produtivo.





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