Caixa de chocolates
- E. R. Recco

- Jul 30, 2021
- 3 min read
Já dizia a grandiosa mãe de Forrest Gump em seu maravilhoso filme: “A vida é como uma caixa de chocolates, você nunca sabe o que vai encontrar”, essa é a graça e a tristeza da vida, as eternas surpresas e mistérios que fazem tudo um pouco mais interessante, que nos motiva acordar todos os dias, as vezes nem sempre pronto, mas isso faz parte dos chocolates...
Existem vários tipos de chocolates: amargos, meio amargos, ao leite, brancos, com licor entre tantas outras diferentes variações que atingem o paladar de todos, mas uma coisa é certa: sempre terá aquele chocolatezinho que você não vai muito com a cara. Isso muda de pessoa para pessoa, mas para mim são os amargos.
A amargura, o rancor, a raiva, um gosto que preenche a minha boca com uma sensação de mal querer, de não bem-vindo, eu já quero na hora cuspir... Eu não gosto da amargura da vida, das pessoas, mas mais especialmente, a sensação de raiva em si porque a raiva deriva da tristeza e meu maior pesadelo é sair dessa terra com um número maior de tristezas causadas do que alegrias.
Eu não cuspo pois odeio o chocolate, eu odeio a sensação, saber que eu causei essa sensação é o que faz mal. Não é minha língua quem cospe, mas sim a minha culpa. Mas, claro, as caixas de chocolate com só um tipo são mais caras e estão nas prateleiras mais altas, temos que ficar com os sortidos, nunca sabendo o que vamos encontrar, até a amargura.
Se a vida fosse só de chocolate ao leite seria tudo mais fácil, simplicidade, calma, relaxamento e felicidade, seria realmente um paraíso e por isso que acabo com eles primeiro, mas geralmente, sempre tem só 3 ou 4, me deixando a mercê dos outros... Alguns dizem que amam chocolate branco e pensam que, se acabou o ao leite, não tem problema pois temos o branco! Mas felicidade nenhuma deriva do óleo do chocolate, apenas do cacau, felicidades efêmeras, o chocolate de mentira. A mim não agrada.
E enfim, temos todos os tipos, desde os meio amargos, aqueles que parecem até que não são tão ruins, mas que guardam uma sensação reprendida que apenas é descoberta por quem se atreve a encarrar seu gosto. Temos os chocolates com licor, que possuem aspirações secretas de serem mais maduros, mais refinados, com um ar de superioridade e sofisticação reservado apenas aos mais velhos. Entretanto, se escondem com uma cápsula de chocolate, com uma doçura, aparentando ser alguém mais sensível, jovem, calmo, menos intenso do que a substância alcoólica que repreende.
Mas que visão perturbadora, não é mesmo? Reduzir seres humanos a chocolates, a pedaços industrializados, frios e sem alma. O ser humano é mais complexo do que um simples presente adocicado. Não somos feitos de uma porcentagem arbitrária de 70, 35 ou 20% de concentração de cacau, somos seres pensantes, atuantes, emotivos, afetuosos e com milhares de qualidades e defeitos. Temos todos um pouco de cada chocolate. Um pouco amargos, um pouco adocicados, um pouco alcoólicos, um pouco recheados.
Essa grandiosa frase serve como uma metáfora muito inteligente e introspectiva sobre a vida, apesar da simplicidade na sua construção, mas de jeito algum devemos levá-la como lema para analisar pessoas e suas surpresas.
Apesar dos apesares, quem não gosta de uma boa caixa de chocolates para animar o dia, não é mesmo? Tem gosto para tudo nesse mundo. Feche os olhos e pegue um, não irá se arrepender nas sensações que descobrirá...





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